Category: Educação e Cultura


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Milhares de riquezas culturais do mundo em um lugar só! | Tecnologia na Educação | Nova Escola.

http://revistaescola.abril.com.br/blogs/tecnologia-educacao/2015/06/16/biblioteca-digital-mundial/

10 razões para se proibir tecnologia para crianças.

http://antesqueelescrescam.com/2014/03/11/10-razoes-para-se-proibir-tecnologia-para-criancas/

3/2/11

Revolução cultural no Brasil: um devaneio para Dilma

A grande revolução brasileira: se tornar uma nação para todos os filhos. Esse ideal aparece ao longo dos séculos em situações diversas, conhece avanços e retrocessos, mas continua sendo um ideal. Concretizá-lo é o nosso destino.

Não poderia ser muito diferente com relação à cultura. Impossível pensar em grandes transformações sem uma noção ampliada do fenômeno, capaz de absorver conceitos e práticas que se espalham pelo nosso território, definindo-o.

Cultura como direito de todos os cidadãos. O papel das mídias nesse artesanato de democracia. As concessões e os conteúdos. A capacidade crítica. Os direitos autorais e coletivos. A memória. O diálogo com o mundo. As cadeias produtivas das artes…

Ora, tudo isso tem sido objeto de discussão e tem aparecido como propostas governamentais, projetos de lei, programas inovadores, deixando um saldo positivo de transformações sobre o qual deverá atuar a ministra Ana de Hollanda.

Há, todavia, uma fronteira indispensável que tem recebido muito menos atenção do que deveria. Um simples devaneio ilustra o caso: o que aconteceria com a vida cultural brasileira se de repente surgisse 220.000 corais mobilizando 6.600.000 vozes?

Parece coisa de doido? Nem tanto. Bastaria que cada escola brasileira criasse um coral em 2011. Villa-Lobos já sonhou com isso. Pois é, são 220.000 escolas envolvidas com formação básica e cerca de 60 milhões de estudantes ávidos por identidade e pertencimento.

Agora imagine o impacto cultural causado pela criação, em cada escola, de também um grupo de dança, outro de capoeira, um grupo de teatro, um clube de leituras, um festival de poesia e um clube de cinema… Nada do outro mundo, com incentivo e direcionalidade as comunidades escolares podem fazer isso.

Já pensou a qualidade que seria filtrada por essa pirâmide gigantesca de conhecimento? E o impacto dessas atividades sobre a formação de mercados, especialmente o nível de qualidade, a produção de conteúdos, as visões de mundo…

Acho que basta esse devaneio preliminar para mostrar que o caminho de uma verdadeira revolução cultural no Brasil passa necessariamente pela Escola… e que não é da ordem do impossível.

Agora, precisa entender a escola como uma grande sinapse entre a vida familiar e comunitária, o tesouro cultural da humanidade e os estímulos da mídia… Pensá-la como lugar de vivências e de experimentação cultural, sabendo que o projeto pedagógico não existe sem a consciência de sua dimensão cultural.

Há avaliações internacionais do nosso sistema educacional que criticam o capital cultural que mobiliza. Houve em nosso País, desde a ditadura, e há no mundo atual de forma generalizada, um definhamento da capacidade da escola de dialogar com o imaginário, e de mobilizar o sujeito desejante.

Como sabemos, quem vem pautando o imaginário da população é a novela das oito e congêneres. A revolução cultural necessária passa pela diversificação do controle da mídia e pela potencialização dessa rede de 220.000 pontos de cultura chamada Educação.

Há documentos norteadores importantes produzidos pelo próprio governo em torno da discussão sobre currículo e cultura – Cf. Moreira e Candau no portal do MEC. Mas o pensamento sobre multicuturalidade parece não atingir a etapa necessária do empoderamento do aluno como criador, a ênfase recai na fruição crítica.

Obviamente, essa ciranda de mobilização cultural das escolas não se restringe às artes. Trata-se da abertura para discutir o Brasil, discutir o mundo, falar de história, filosofia, internet, ancestralidades, direitos humanos… De forma proativa. Criando papéis e gozos.

Os anos vão passando e ‘educação e cultura’ não conseguem produzir resultados convincentes de integração e sinergia. Como estabelecer um diálogo estruturante entre essas duas esferas em todos os níveis – federal, estadual e municipal? Obviamente não existe. Na frieza dos organogramas não há estruturas de governo com a finalidade precípua de promover tal integração.

Trata-se, portanto, de algo que precisa ser firmado como prioridade de governo. Independente da boa vontade dos ministros envolvidos, que parece certa – já houve um movimento interessante nessa direção entre 2009 e 2010-, é preciso perceber o valor estratégico dessa questão, declarando-a prioridade nacional.

Educação como sistema imunológico da coletividade, sendo a Cultura a garantia de que há investimento sério na direção da formação de jovens cidadãos com capacidade crítica e criadora.

Fica o devaneio: que o futuro da sociedade brasileira seja discutido em milhões de pequenas rodas, e que os jovens redescubram a ousadia da cultura como estratégia cognitiva, especialmente no redesenho daquilo que chamamos currículo, digo, vida.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.

O CONSTRUTIVISMO QUE DESTROI

Roberto Boaventura da Silva Sá

 Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT

rbventur26@yahoo.com.br

A Revista Veja (RV) – da qual não sou assíduo leitor – enfim, conseguiu, não sem ressalvas, me contemplar por meio da matéria “Salto no escuro” (Ed. de 12 de maio pp.), assinada por Marcelo Bortoloti. Ali, foram expostas as mazelas do construtivismo que, conforme a parte final do lead (resumo do texto), trata-se “de um sistema adotado por países com os piores indicadores de ensino do mundo”.

A base da matéria de Bortoloti foi uma pesquisa da UNESP; aliás, no campus de Araraquara, encontra-se um respeitável núcleo de estudo sobre esse tema, sob liderança do Prof. Dr. Newton Duarte. De minha parte, alio-me às reflexões expostas por aquela equipe. Por cá, tenho sido – há algum tempo – uma das poucas vozes a dizer publicamente com todas as letras que as novas práticas pedagógicas – precedidas da extrema desvalorização salarial e social do professor – estão enterrando nossa educação. Detalhe: covardemente, ninguém entra no debate. Talvez, agora, a Veja falando…

Mas por que o construtivismo é perverso? Por que a perversidade é difícil de ser percebida ou assumida? Inicio pela parte final: porque antes de tudo ele está na absurda  lógica do politicamente correto desta esvaziada pós-modernidade, respondendo, assim, a interesses do neoliberalismo/capitalismo. O construtivismo, antes de tudo, contemplaria a noção de alteridade, respeitando, grosso modo, o conhecimento que o outro (no caso, o aluno) já traz consigo. Sobre isso, Veja diz que “A teoria do suíço Jean Piaget deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real”.

Assim, o conhecimento abstrato de tudo o que esteja fora da realidade do aluno está comprometido, pois se encontra secundarizado ou olvidado no rol dos conteúdos. Numa caricatura, diz a matéria de Veja: “como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade”.

No construtivismo, é dito ainda que “as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: ‘O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas". Já o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP), adverte: "As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes". Isso tudo porque os construtivistas negam o acúmulo do conhecimento construído. Inacreditavelmente, negam os clássicos. Aos construtivistas, um professor não ensina, apenas serve como mediador na relação ensino-aprendizagem. Um absurdo!

Depois desses e outros registros, a matéria de Veja fez um apelo ao retorno das práticas tradicionais na educação, ao dizer: “Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência”.

É por aí mesmo; e se não for, a escola não é mais necessária. Assim, ou país retoma, com rigor, essa “liturgia de ensino” ou verá, cada vez mais, coisas trágicas, como, p. ex., a “importação” de mão-de-obra especializada de outros países (Argentina, Chile, México…) para ocupar postos de trabalho no Brasil, como foi noticiado pela mídia na semana que passou. Tal notícia deveria provocar reflexões. A principal delas seria detectar quem mais rapidamente perde com manutenção de uma educação falida. Para qualquer dúvida, afirmo: são os filhos dos trabalhadores; ou seja, aqueles que se encontram nas classes sociais inferiores. Alguém prova o oposto?

PS. para as ressalvas: 1) Há controvérsia sobre ser Vygotsky construtivista, como é afirmado; 2. o grupo Abril, que edita a RV, é o mesmo da Revista Nova Escola, de aberto teor construtivista. A Abril é um dos grupos mais radicais na defesa do neoliberalismo e da pós-modernidade: sustentáculos do estágio atual do capitalismo (!).

28 de Abril – Dia da Educação

Publicado em 26/04/2010 por Redação, nas categorias Almanaque Brasil Cultura.

Que a educação deveria ser um dos maiores investimentos em qualquer país, ninguém duvida. Mas a questão da educação ainda é séria no Brasil. Apesar de índices demonstrarem que, cada vez mais, os índices de analfabetismo, de evasão escolar e de repetência vêm caindo, a situação ainda não é das melhores.

 

Existem vários fatores que contribuem para a evasão escolar e para o analfabetismo. A grande maioria das crianças que estuda na rede pública sofrem, além da deficiência do ensino, dificuldades com transporte e alimentação. Além disso, muitas crianças precisam ajudar os pais a trabalhar e cumprem uma jornada dupla que interfere brutalmente no rendimento escolar.

Se já é senso comum dizer que as crianças são o futuro do país, nada mais justo que criar condições para elas estudarem. E está provado também que, quanto maior o nível de instrução, maior a chance de encontrar trabalho.

E quando adulto, quanto maior o nível de escolaridade dos pais, maior será o nível de escolaridade dos filhos também. O Brasil gasta um média de 5,5% de seu Produto Interno Bruto (PIB) na educação, mas ainda não consegue suprir a demanda de estudantes.

O atual sistema educacional brasileiro tem a seguinte estrutura:

Educação Básica: educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio

Educação Superior – universidade e pós-graduação

Mas educar não significa só investir em escola.

O primeiro grupo social do qual participamos é a família e ela participa também do que chamamos educação informal.

LEONARDO BOFF

A páscoa é uma festa comum a judeus e a cristãos e encerra uma metáfora da atual situação da Terra, nossa devastada morada comum. Etimologicamente, páscoa significa passagem da escravidão para a liberdade e da morte para a vida. O Planeta como um todo está passando por uma severa páscoa. Estamos dentro de um processo acelerado de perda: de ar, de solos, de água, de florestas, de gelos, de oceanos, de biodiversidade e de sustentabilidade do própro sistema-Terra. Assistimos estarrecidos aos terremotos no Haiti e no Chile, seguidos de tsunames. Como se relaciona tudo isso com a Terra? Quando as perdas vão parar? Ou para onde nos poderão conduzir? Podemos esperar como na Páscoa que, após a sexta-feira santa de paixão e morte, irrompe sempre nova vida e ressurreição?

Precisamos de um olhar retrospectivo sobre a história da Terra para lançarmos alguma luz sobre a crise atual. Antes de tudo, cumpre reconhecer que terremotos e devastações são recorrentes na história geológica do Planeta. Existe uma "taxa de extinção de fundo" que ocorre no processo normal da evolução. Espécies existem por milhões e milhões de anos e depois desparecem. É como um indivíduo que nasce, vive por algum tempo e morre. A extinção é o destino dos indivíduos e das espécies, também da nossa.

Mas além deste processo natural, existem as extinções em massa. A Terra, segundo geólogos, teria passado por 15 grandes extinções desta natureza. Duas foram especialmente graves. A primeira ocorrida há 245 milhões de anos por ocasião da ruptura de Pangéia, aquele continente único que se fragmentou e deu origem aos atuais continentes africano e sulamericano. O evento foi tão devastador que teria dizimado entre 75 a 95% das espécies de vida então existentes. Por debaixo dos continentes continuam ativas as placas tectônicas, se chocando umas com as outras, se sobrepondo ou se afastando, movimento chamado de deriva continental, responsável pelos terremotos.

A segunda extinsão em massa ocorreu há 65 milhões de anos, causada por alterações climáticas, subida do nível do mar e aquecimento, eventos provocados por um asteróide de 9,6 km caido na América Central. Provocou incêndios infernais, maremotos, gases venenosos e longo obscurecimento do sol. Os dinossauros que por 133 milhões de anos dominavam, soberanos, sobre a Terra, desapareceram totalmente bem como 50% das espécies vivas. A Terra precisou de dez milhões de anos para se refazer totalmente. Mas permitiu uma radiação de biodiversidade como jamais antes na história. O nosso ancestral que vivia na copa das árvores, se alimentando de flores, tremendo de medo dos dinossauros, pôde descer à terra e fazer seu percurso que culminou no que somos hoje.

Cientistas (Ward, Ehrlich, Lovelock, Myers e outros) sustentam que está em curso um outra grande extinção que se iniciou há uns 2,5 millhões e anos quando extensas geleiras começaram a cobrir parte do Planeta, alterando os climas e os níveis do mar. Ela se acelerou enormemente com o surgimento de um verdadeiro meteoro rasante que é o ser humano através de sua sistemática intervenção no sistema-Terra, particularmente nos últimos séculos. Peter Ward (O fim da evolução, 1977, p.268) refere que esta extinção em massa se nota claramente no Brasil que nos últimos 35 anos está extinguindo definitivamente quatro espécies por dia. E termina advertindo: "um gigantesco desastre ecológico nos aguarda".

O que nos causa crise de sentido é a exitência dos terremotos que destroem tudo e dizimam milhares de pessoas como no Haiti e no Chile. E aqui humildemente temos que aceitar a Terra assim como é, ora mãe generosa, ora madrasta cruel. Ela segue mecanismos cegos de suas forças geológicas. Ela nos ignora, por isso os tsunamis e cataclismos são aterradoras. Mas nos passa informações. Nossa missão de seres inteligentes é descodificá-las para evitar danos ou usá-las em nosso benefício. Os animais captam tais informações e antes de um tsunami fogem para lugares altos. Talvez nós outrora, sabíamos captá-las e nos defendíamos. Hoje perdemos esta capacidade. Mas, para suprir nossa insuficiência, está ai a ciência. Ela pode descodificar as informações que previamente a Terra nos passa e nos sugerir estratégias de autodefesa e salvamento.

Como somos a própria Terra que tem consciência e inteligência, estamos ainda na fase juvenil, com pouco aprendizado. Estamos ingressando na fase adulta, aprendendo melhor como manejar as energias da Terra e do cosmos. Então a Terra, através de nosso saber, deixará que seus mecanismos sejam destrutivos. Todos vamos ainda crescer, aprender e amadurecer.

A Terra pende da cruz. Temos que tirá-la de lá e ressuscitá-la. Então celebraremos uma páscoa verdadeira. E nos será permitido desejar: feliz Páscoa.

*Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Jequitibas e Eucaliptos

Gaiola não gosta de passarinho solto batendo asas- Rubem Alves

Há profissões que podem ser aprendidas na escola, de fora para dentro. E há profissões que já nascem com a gente e não tem jeito de ensinar; só é possível despertar. Isso vale para professores e educadores -e até criei duas metáforas: os eucaliptos, que se produzem em série, todos iguais, fazendo ordem unida como soldados, e os jequitibás, árvores selvagens e solitárias que nascem no meio da floresta sem que ninguém as ensine a serem árvores…

Dentre os muitos jequitibás que conheci, está uma mulher. E fiquei conhecendo sua alma de educadora de um jeito curioso. Nova numa cidade, ela precisava escolher uma escola para os seus filhos. Foi então visitando as escolas, umas após as outras, e era sempre a mesma coisa. As diretoras e diretores pensavam que ela estava em busca de uma escola que prometesse aprovação no vestibular com apertos, sofrimentos e 100% do uso do tempo. Mas ela estava em busca de uma escola em que os seus filhos descobrissem o fascínio e a alegria de aprender.Ela encontrou a escola que procurava, os filhos cresceram, se formaram, tornaram-se profissionais e bateram suas asas.

Seus filhos se foram, mas uma coisa não foi. Ficou. Ela, jequitibá. Eucalipto, chega um tempo, é aposentado, cortado, transformado em dinheiro. Mas os jequitibás não se aposentam. Até morrer de velhice, eles querem oferecer sombra para crianças e professores.

Aconteceu, então, que muitos jequitibás se encontraram e resolveram se transformar numa floresta com o propósito de ajudar escolas que precisassem. Foi numa escola pobre lá na zona leste, na Vila Matilde. Foi assim que me contaram.

"Fomos lá a pedido da antiga diretora -ela tinha um jeito de jequitibá! – , impotente diante da enormidade dos problemas a serem resolvidos. O que vimos, ao entrar, foi uma escola simples, como qualquer escola pobre de periferia. Mas a maneira como fomos acolhidas fez toda a diferença. Sentimos que havia verdade e esperança no ar."

Aquela era a escola que tanto buscamos encontrar para implantar o projeto a que demos o nome pomposo de "Saúde Mental de Mãos Dadas com a Escola"!

Demo-nos conta de que a necessidade mais importante e urgente era canalizar toda aquela pulsão de vida e trazer o olhar de professoras, crianças e funcionários para o prazer. A alegria faz bem à inteligência. E as crianças e os adolescentes precisam de pouca coisa para se sentirem felizes.

Surgiu então a ideia de um coral! Quando falamos nisso, foi aquela explosão de risos. Um aluno, da turma dos "difíceis", mencionou o orgulho de seus pais vendo-o cantar num coral! Mas queríamos coisa que valesse a pena, não um corinho qualquer. Lembramos da Osesp e o fantástico maestro Abel Rocha foi contatado.

Ele foi nos encontrar e quanta paciência ele teve em nos escutar e conhecer o que pretendíamos. E o nosso projeto também o conquistou. Arranjou-nos dois regentes, jovens, competentes, seus assistentes, e demos início ao nosso tão esperado e festejado coral.

A apresentação estava marcada para o meio de dezembro. Mas, por razões de ordem superior, parece que de ordem burocrática e administrativa, o projeto foi interrompido. Uma ventania soprou pra longe o jequitibá e, com ele, foi-se o coral…

Parece que existe sempre um conflito entre as regras da burocracia e as florações da vida. Gaiola não gosta de passarinho solto batendo asas…Foi isso que Kurosawa fez representar no seu comovente e profundo filme "Viver".

Mas é certo que os passarinhos engaiolados jamais se esquecerão da beleza que é cantar em liberdade…

 

Citação

Saúde Mental
Rubem Alves

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se software, "equipamento macio". Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades "espirituais" – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele. Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.
Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…"

"Sobre o tempo e a eternidade" Campinas: Ed. Papirus, 1996.