Category: Arte e Cultura


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Igreja de bambu – Pela Natureza.

Igreja de bambu
04.05.2011

Igreja de bambu está localizada em Yogyakarta, Indonesia, e da autoria do arquiteto Pradito Eugênio. Esta igreja destaca-se pela sua materialidade, processo construtivo e carácter temporário.

Feita totalmente em bambu o projeto visa criar um local de culto que unifique a comunidade paroquial com a natureza transcendente da cultura javanesa. Construída pela comunidade ali residente, após um terramoto que devastou a área, o projecto utiliza materiais locais e metodologias tradicionais.

Igreja de bambu

Ditadas pelo meio ambiente e o desejo de integrar ambientes interiores e exteriores, a igreja possui uma pele permeável em bambu que envolve as paredes até ao teto.

A estrutura principal feita em bambu é uma série de triângulos repetitivos que permanecem expostos no interior da unidade.

Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu
Igreja de bambu

Procura-se mecenas

Procura-se mecenas

Já não existem mais mecenas como antigamente. Esse tipo de investidor “desinteressado”, voltado pura e simplesmente para o reconhecimento, valorização e fortalecimento da arte e do artista, está com os dias contados. Para esse nosso mecenas imaginário e utópico, arte não se enquadra em linhas estratégicas, não precisa se adequar à política cultural de organizações e governos.

Historicamente, essa figura era muito comum nas relações de poder das cortes, igrejas e elite burguesa. Mas os novos tempos (de mídia, consumo, espetáculo e Internet) exigem novos mecenas. No Brasil contemporâneo, falta-nos a grande figura do investidor das artes. Alguém que ocupe o posto que já foi de Cicillo Matarazzo, Assis Chateubriand, Castro Maya. O brilho maculado do mecenas brasileiro carrega a feição vaidosa do encarcerado Edemar Cid Ferreira.

Mas neste vazio das elites brasileiras, há de se destacar o trabalho de famílias como Moreira Salles, Marinho, Setúbal e Andrade Gutierrez, que figuram entre os grandes colecionadores arte e conduzem empreendimentos culturais com investimentos próprios de grande monta, além de conduzirem programas sólidos e continuados, de interesse público, além de fazerem o justo uso das Leis de Incentivo, coisa incomum na lógica vigente do mecenato empresarial.

Mas uma coisa mudou nas relações de mecenato. O artista deixou de ser o alvo dos investimentos, que passaram a abarcar processos mais complexos e políticas culturais ou de patrocínio. Via de regra, essas políticas dão conta de posicionar, agregar valor, ditar comportamentos e modos de vida a uma esfera simbólica predeterminada, geralmente uma marca empresarial. Para receber o benefício do mecenas, o artista precisa se enquadrar, nesta ou naquela política, pública ou privada.

Num mundo de cultura participativa, de redes e telas convergentes, o mecenato precisa contaminar toda a sociedade. Para que isso ocorra, precisaríamos ter um tipo de consciência coletiva sobre a necessidade de investirmos todos em processos criativos, analisando os efeitos de cada real doado ou investido (ingresso, livro, CD…) sobre o nosso imaginário coletivo, em busca de autonomia e liberdade.

Leonardo Brant

o encontro encontra o museu encontra o encontro

Foto: Alex Forman (Divulgação)
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ

30/11/2010 · 31 · 5

Me dê um museu e eu o preencho, disse certa vez Pablo Picasso, numa daquelas citações que perdem seu contexto e viram objetossauros da memória. Preencher um museu, hoje se sabe (e Picasso já o compreendia), não é tarefa meramente material. Muito da magia desses prédios de antiquários reside justamente no espaço entre o objeto e sua recepção pelo visitante. Um espaço bastante curto e sutil chamado apropriação. A apropriação é nada menos que a instância particular de aproximação entre estes dois contextos históricos e identitários distintos, sujeito e objeto – e pode ser representada pelo instante fugaz do encontro. Todo museu é um lugar de encontros. Talvez por isso tenha sido tãoapropriado ser apresentado ao projeto-em-construção deRegina CaséHermano ViannaGringo Cardia a partir da mediação de Heloísa Buarque de Hollanda, justo noRio de Encontros, ciclo de seminários e mesas redondas, organizado pelO Instituto em parceria com o CESeC, naCasa do Saber.

O projeto em questão chama-se Museu do Encontro, e aponta para a tessitura de saberes trabalhados pelos seus três idealizadores, famosos (juntos e misturados ou em esforço solo) pelos trabalhos realizados em belos exemplos de cidadania. Regina, por exemplo, sempre falou da muvuca. Seu lugar de fala ficou mais claro quanto mais a faceta apresentadora se sobrepôs à atriz nacionalmente reconhecida. Grande comunicadora, ela já havia trabalhado (no Programa Legal e no Central da Periferia p.ex.) por várias e várias vezes com Hermano, antropólogo, pesquisador musical, sempre muito inteirado das novas tendências na internet e na vida social. Hermano estuda o funk carioca desde os anos 1980, tendo acompanhado uma (r)evolução histórica de perto. O samba também sempre esteve em sua mira. E, vale lembrar, o Overmundo é uma de suas crias nesse longo caminhar em busca do olhar sobre a diversidade cultural. Gringo é artista plástico, designer multimídia e cenógrafo. Já trabalhou com uma grande gama de projetos sociais, sempre em parceria com organizações como a Cufa, o AfroReggae, o Nós do Morro etc. Ele é ainda responsável pela escolaSpetaculu, que atua na formação de jovens de periferia para o trabalho em produções artísticas. É curioso pensar que, como propuseram Gringo e Regina no último dia 27 de outubro (lá se vai um longínquo dia 27, desde quando este tema se tornou pauta, até o dia em que efetivamente o materializei por aqui), dentre todas as atividades que já desempenharam, o “encontro” é o que os une. De forma poética, não só o museu, mas toda a vida é mero palco para o desenrolar dos maisinusitados encontros. E um encontro desses três não poderia resultar em uma ideia menos instigante.

O Museu do Encontro, no entanto, no discurso de Hermano, vai além do museu. É também uma escola. Um espaço não só para a educação para o encontro mas também e principalmente para a formação, capacitação e abertura de horizontes para jovens de periferia e jovens de classe média que integrem turmas em cursos livres de comunicação e novas mídias, profissões cuja absorção pelo mercado tem representado uma oportunidade grande para… o encontro. O único adendo a isto que pode e deve ser feito, é claro, é a perspectiva de que assim como todo museu é um lugar de encontro, todo museu é um museu-escola. Pois que, como todo teatro que não existe sem uma coxia, o museu não se sustenta de pé sem pesquisa e formação de profissionais para funções a serem executadas na reserva técnica da instituição. Museu não é só exposição, afinal.

A ideia de um museu que se aproxima da dinâmica daeconomia criativa e que tem interesse de explorar à exaustão recursos tecnológicos para estimular a interação dos visitantes e entre os visitantes também encontra eco nas melhores expectativas que um encontro pode proporcionar. É um museu que se distancia da lógica tradicionalíssima do antiquário. E, eu completaria, se aproxima “perigosamente” da lógica do museu-espetáculo – aquela exibição de instalações de encher os olhos mas pouco trabalho efetivamente memorialístico. A trajetória de cada um desses personagens que o idealizam, entretanto, em alguma medida, tranquiliza o horror de que este venha a ser só mais um Museu do Futebol, ou da Língua Portuguesa, ou do Amanhã. O Museu do Encontro tem tudo para ser um museu de grandes novidades.

Museu, enfim, é espaço para encontros. E o que falta ao Museu do Encontro, como bem frisado por Regina, é justamenteencontrar o seu espaço. Há o sonho, cultivado desde antes de ontem e antes da Rio 2016, de que o museu fosse sediado no Porto, Centro do Rio de Janeiro. O lugar chegou a ser escolhido um par de vezes, mas as complicações de se trabalhar em uma área em que os espaços foram quase que inteiramente loteados ao longo da História entre as três dimensões do poder público – municipalidade, estado e União – são tantas, que a busca ainda não chegou ao fim. O Museu do Encontro ainda não encontrou seu espaço na cidade. Mas há de fazê-lo.

Aliás, um museu antigueto, como diz Gringo Cardia, o que o credenciaria a diferenciar-se de outras experiências de museus comunitários, uma vez que, aqui, o objetivo não seria construir um discurso endêmico comum, mas abrir espaço para o encontro de novas identidades. Calafrio de quemestudou de perto uma experiência pioneira de museu em favela e sabe que, a despeito dos 60 ou 70% de visitantes que mantém alguma relação íntima com a localidade, a circulação em torno do museu comunitário torna-o tudo, menos um gueto. No entanto, reconheço as boas intenções e a experiência acumulada em torno justamente das disputas que envolvem a construção dos conceitos de centro e periferia. Bem notado: como apontaria Wacquant, o encontro é o antídoto do gueto. E, aí, a fala de Gringo é certeira.

Nesse sentido, o que me toca como algo de mais inovador no museu que capitaneiam é menos a sua proposta de aliar (ouencontrar) culto e exibição, escola e teatro da vida, exposição e capacitação, objetossauros e novas tecnologias, e mais a sua obstinada ideia de proporcionar e memorializar o discurso sobre o encontro. O encontro que pode ir da chegada dos colonizadores às praias indigenatas, ao surgimento do samba e da bossa nova. Frente a isso, todas as traquitanas discursivas soam mero deslumbramento. O encontro – que pode se dar no prédio de concreto ou no espaço aberto do ecomuseu – tem memória. E essa descoberta é a jazida de longe mais preciosa que o lapidário do projeto maneja. O encontro é, talvez, matéria-prima e principal tecnologia (social) do museu – historicizado, então, pode tornar-se identidade urbana particular do carioca. Afinal, diria Hélio Oiticica, museu é o mundo. E o que na vida não é feito de encontro… se até mesmo os desencontros não fazem mais do que nos colocar diante do novo?

 

FLIP consagra cultura do espetáculo

Breno Altman | quinta-feira, 12 agosto 2010Sem Comentários

A Festa Literária Internacional de Paraty, que realiza sua oitava edição entre 4 e 8 de agosto, transformou-se em acontecimento marcante da vida cultural brasileira. Considerada um dos principais festivais mundiais do gênero, atrai milhares de participantes, atenção da imprensa e convidados ilustres. Nas devidas proporções, é um pequeno Woodstock das letras, que anualmente toma de assalto a aprazível cidade fluminense.

Apesar dos perrengues, pois a infraestrutura do município-sede costuma sucumbir ao excesso de visitantes, a diversão é garantida. Quem gosta de livros e ideias tem a chance de conviver com uma penca de bons autores e usufruir de opiniões sobre os mais diversos assuntos. Não é todo dia, afinal, que intelectuais renomados descem à planície e transitam entre o distinto público.

Mas há outras abordagens possíveis sobre a FLIP, além do entretenimento. Uma delas, quase irresistível, é comparar atividades nas quais essa intelectualidade antes se envolvia com seu papel atual, na era do avassalador predomínio da indústria cultural. A acareação talvez seja ilustrativa da reviravolta de sua função social após a crise dos projetos-mundo, no poente da Guerra Fria.

Escritores e artistas normalmente se reuniam, até então, para se posicionar diante de situações que alarmavam a sociedade e afetavam o mundo da cultura. Suas ferramentas eram congressos, simpósios e conferências que articulavam os intelectuais como agente coletivo. Os produtos dessas iniciativas – resoluções, manifestos ou declarações – buscavam a comunicação com outros setores sociais. O objetivo era utilizar talento e prestígio para construir vontades públicas.

Os exemplos brasileiros mais conhecidos, nesta lógica, foram o I Congresso Brasileiro de Escritores (1945) e as diversas reuniões da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência durante os anos 70. Mas são inúmeros os eventos que, durante décadas, expressavam o esforço autônomo da intelectualidade para forjar conexões com a sociedade, vertebrados por entidades representativas.

Marketing como ciência

Mesmo movimentos de ordem estética, como a Semana de Arte Moderna (1922), cuja estrutura era semelhante a um festival, faziam parte do reposicionamento político-cultural e procuravam um discurso criativo que se fundisse a determinados programas de país. Esse também foi o caso dos Centros Populares de Cultura, do Cinema Novo e do Tropicalismo, para falarmos de outras experiências notórias.

A intelectualidade e os artistas eram, como hoje, produtores de bens culturais, inseridos no mercado e concentrados em conseguir o ganha-pão através da comercialização de suas obras. Mas a esfera de cidadania, política ou estética, era razoavelmente protegida contra o assédio das razões mercantis, graças a uma rede de instituições estatais, partidárias e associativas que respaldava a cultura orgânica.

No entanto, o predomínio das ideias liberais, chancelado com o colapso do socialismo no Leste Europeu, foi limando essa blindagem e criando as condições para que o mercado estendesse seus tentáculos sobre espaços outrora salvaguardados. Apenas deveriam sobreviver criações que pudessem ser transformadas em mercadoria rentável, submetidas à lógica do espetáculo e regidas pelas normas do marketing, a principal ciência social dos novos tempos.

Darwinismo cultural

Ainda que diversas organizações, ligadas à arte e à ciência, continuem a promover encontros relevantes, essas realizações são cada vez menos divulgadas pela imprensa. O jornalismo cultural, aos poucos, também terminou capturado pelos interesses empresariais, que demandam aval midiático para acelerar a rotação de seus estoques.

O ímpeto dessa mudança mergulhou artistas e intelectuais em uma espécie de darwinismo cultural, marcado pelo medo de sucumbir em um ambiente no qual somente os escolhidos pelo mercado poderiam sobreviver. A competição e o individualismo derivados desse temor acomodatício acabaram por minar formas coletivas de organização e a própria integração da intelectualidade ao processo histórico.

Assim chegamos à FLIP. No lugar de entidades do ramo, o comando cabe a uma organização não-governamental alimentada com recursos de editoras e seus patrocinadores. Os escritores, de protagonistas, viraram atração. Cada autor ou cada patota em seu quadrado, opiniões e inspirações são exibidas à assistência, e acaba por aí a sinergia com os plebeus.

Casamata do liberalismo

Tudo é bem pensado. Não há estandes emporcalhando as ruas de Paraty. O festival é como um showroom a céu aberto: os produtores e suas obras podem ser vistos, ouvidos e tocados, mas não comprados. O mercado toma conta da cultura, porém preserva seu verniz de forma elegante, de tal sorte que os diletos visitantes não se sintam consumidores, mas personagens.

O simbólico dessa edição da FLIP talvez esteja no convite a Fernando Henrique Cardoso para fazer a palestra de abertura. Um dos maiores intelectuais da história brasileira, antigo cardeal do pensamento crítico, havia antes se convertido em presidente da República para fazer reformas pleiteadas por forças de mercado. Na feira de Paraty, colocou sua biografia e inteligência a serviço da indústria cultural.

O país vive mudanças econômicas, sociais e até políticas de relevância. A duras penas, a soberania pública tenta recuperar o terreno perdido ao espaço privado nos anos 90. Mas o mundo da cultura, cujo centro de gravidade deslocou-se para o eixo formado por empresas e mídia, aparece ironicamente como casamata de um liberalismo agonizante. Ainda que, nas calçadas paratienses, esse conservadorismo moderno transborde de charme, beleza e erudição.

* Publicado originalmente no sítio Ópera Mundi.

 

Citação

Acesso, acessibilidade e direitos culturais

Por Blog Acesso

 

Quando esteve no Brasil, por ocasião do I Seminário Internacional de Democratização Cultural, promovido em 2007 pelo Instituto Votorantim, Doutor em Ciências Econômicas, responsável pelo programa “Práticas e consumos culturais”, do Ministério da Cultura e da Comunicação (DEPS) da França, Olivier Donnat, apontou a democratização do acesso à cultura como um princípio orientador para as políticas culturais. Na época, a disparidade entre o exemplo francês, baseado na experiência de erros e acertos na busca pela democratização cultural, e o brasileiro, ainda incipiente em sua conceituação, era enorme. Hoje, três anos depois, começamos a dar novos passos no processo que vai da teoria à prática, o que pode ser facilmente comprovado por eventos como a II Conferência Nacional de Cultura (CNC) (http://blogs.cultura.gov.br/cnc/), realizada no último fim de semana, no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21, em Brasília.

Além de reunir representantes de municípios de todo o País, a Conferência ampliou e deu destaque ao tema, sob diversos pontos de vista, com a mesa redonda do Eixo II – Cultura, Cidade e Cidadania, “Acesso, Acessibilidade e Direitos Culturais”. O debate, que aconteceu na sexta-feira, dia 12 de março, foi aberto pelo secretário de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Célio Turino, que afirmou que para garantir o acesso da população aos bens culturais é preciso mais do que apenas direcionar esforços à capacitação física de equipamentos culturais. Turino citou os Pontos de Cultura (http://www.cultura.gov.br/cultura_viva/?page_id=31), programa lançado pelo Ministério da Cultura em 2005, como exemplo de política pública eficiente para a área e afirmou ainda que “é preciso fortalecer a autonomia e estimular o protagonismo das comunidades”.

A mesa redonda, da qual Turino fez parte, foi mediada pela secretária municipal de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e representante do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e Regiões Metropolitanas, Jandira Feghali, e contou com a participação da jornalista Marta Porto, responsável pela apresentação sobre “Memória e transformação social”. Em seu discurso, Marta pontuou a memória como um reservatório de vivências do qual a arte e a cultura se nutrem. Para ela, caberia ao gestor cultural, justamente, o papel de ampliar tanto memória quanto repertório. A jornalista acredita que “a cultura revela o espírito de um tempo, e, para isso, precisa de liberdade conceitual. É preciso apostar na multiplicidade das manifestações simbólicas, para que as experiências possam ser compartilhadas e enriquecidas”.
O tema também foi representado, do ponto de vista jurídico, pelo advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Manoel Pereira dos Santos. Com o título “O Direito autoral e os seus paradoxos no século XXI”, a fala de Santos se baseou no princípio de que deve-se garantir o acesso aos bens culturais por meio de incentivo à criação e ao desenvolvimento cultural, ao invés do esquema atual que tende a superproteger o autor. Para ele, “é preciso equilíbrio entre autor e direitos da sociedade”.
O fechamento da mesa ficou a cargo do professor da Universidade Federal do Maranhão, Alexandre Corrêa, que discorreu sobre “a cidade como fenômeno cultural”. Segundo o professor, uma vez que 80% das pessoas hoje vivem nas cidades, a discussão atual “é sobre cidade e natureza, diferente da dicotomia entre urbano e rural”.

32 prioridades para o setor
O último dia da Conferência, 14 de março, foi dedicado à eleição das 32 prioridades (link da lista em pdf – http://blogs.cultura.gov.br/cnc/files/2010/03/Propostas-32-finais.pdf)  que nortearão as políticas públicas para a cultura. Tais prioridades, que seguiram a mesma divisão de eixos temáticos que os debates da Conferência – produção simbólica e diversidade cultural; cultura, cidade e cidadania; cultura e desenvolvimento sustentável; cultura e economia criativa; gestão e institucionalidade da cultura – serão tratadas uma a uma, de acordo com sua natureza. Enquanto umas poderão servir para complementar políticas públicas já existentes; outras, no formato de projetos de lei, serão enviadas ao Congresso Nacional ou deverão ser reunidas em ações conjuntas entre ministérios afins.
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, que também esteve presente na Conferência, revelou que, em 2010, o Ministério da Cultura terá orçamento recorde, equivalente a 1% do total de impostos arrecadados pela União –  o que representa o grande avanço, dado o histórico nacional de verbas diminutas destinadas à cultura.  Para ele, “esse é um momento de afirmação da cultura. Esse tema não será mais subalterno. Todas as outras pastas são importantes, mas nada se realiza sem cultura”, diz.

Para assistir alguns trechos da Conferência, clique aqui.

Acesso pergunta: Qual a sua opinião sobre o orçamento destinado à cultura, hoje?

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Os caminhos para a gestão cultural
Blog Acesso –

Pode-se dizer que, de tempos em tempos, a sociedade se modifica, gerando reflexões, posicionamentos e necessidades que, antes, sequer poderiam ser imaginados. Esse processo natural e cumulativo exige, além da busca por novos materiais e tecnologias, o surgimento de novos profissionais, forjados no calor das demandas urgentes. Com isso, as definições de perfil, atribuições, direitos e deveres, bem como a constituição de uma classe profissional, costumam acontecer muito tempo depois do trabalho iniciado. Esse é o caso do gestor cultural que, mesmo atuando há algumas décadas, só agora passa a ter seu escopo de trabalho discutido e sua existência valorizada.

No Brasil, especificamente, a questão é ainda mais complexa, uma vez que cultura e educação são, historicamente, áreas tratadas de forma dissociada. “O Alcione Aráujo [dramaturgo que escreveu Há Vagas para Moças de Fino Trato] diz que este distanciamento acontece quando deixamos de ter uma formação educacional mais humanista e adotamos uma visão mais técnica. O que eu acredito que aconteça, justamente, quando passamos de uma influência europeia, com destaque para Portugal e França, para o modelo americano, por volta dos anos 1940, que trazia uma visão de carreira muito mais preocupada com o futuro do que com o processo de aquisição do conhecimento”, afirma Maria Helena Cunha, diretora da DUO Informação e Cultura e autora do livro Gestão Cultural: profissional em formação.

Por outro lado, se formos refazer o percurso das políticas culturais no país, partindo dos anos 1930, com Mário de Andrade à frente do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, até os dias atuais, veremos que o investimento em formação e qualificação dos profissionais da cultura é, senão inexistente, pulverizado.

Mas a reflexão tardia sobre o tema não é uma experiência restrita ao Brasil. Em Portugal e na Espanha, a preocupação com as políticas e com a gestão cultural só eclodiu depois do período de ditadura, na decáda de 80 do século 20, quando os dois países foram incorporados à União Europeia. Como resposta aos tempos de repressão, surgiu um protagonismo cultural, reivindicatório de mudanças e sedento pelo processo de reconstrução democrática. O especialista em gestão e política cultural da Universidade de Girona, na Espanha, Alfons Martinell, costuma dizer em seus artigos e palestras que estes fatores abriram novas perspectivas para a realidade cultural espanhola, “com um crescimento constante da instituição pública (principalmente local e regional), que exigiu uma enorme incorporação de capital humano e um consequente processo de profissionalização”.

Em terras brasileiras, o despontar dos profissionais da cultura só se concretizaria com o advento das leis de incentivo, quando o mercado passa a demandar um profissional capaz de elaborar, promover e executar projetos, o produtor cultural, que acaba abarcando diversas funções, mesmo sem formação específica. O que seria resolvido nos anos 1990, com a criação de dois cursos de produção cultural, um na Universidade Federal Fluminense – UFF, e o outro na Universidade Federal da Bahia – UFBA. “Todo o movimento de profissionalização e de formação superior na área da cultura é muito recente. O curso de graduação em Produção Cultural da UFF, no Rio de Janeiro, foi pioneiro quando de sua criação em 1995. De lá para cá, outras iniciativas tiveram vez, em distintos formatos – graduação plena, habilitação de graduação, graduação tecnológica (2 anos), cursos de pós-graduação (lato e stricto sensu), cursos de extensão universitária e cursos livres”, conta o coordenador do Laboratório de Ações Culturais da UFF, Luiz Augusto Rodrigues.

Em contraponto, o debate sobre a necessidade de investimento na capacitação de profissionais específicos para a criação de políticas públicas e gestão de projetos e instituições só começa a ganhar espaço agora. Para Maria Helena Cunha, a movimentação em torno do tema está associada ao mercado e à questão do próprio reconhecimento da profissão. “Essa é uma questão mundial já que o campo da cultura passou a se relacionar com outras áreas como a economia e a política. Com isso, existe uma busca do mercado por profissionais mais qualificados. Mas é preciso dizer que também há uma preocupação do setor público, nos níveis federal, estadual e municipal, com esse profissional. O Ministério da Cultura, por exemplo, tem como um de seus pilares um programa de formação para a área”, explica.

Mas a oferta de cursos e de bibliografias sobre o tema ainda é incipiente. “No Brasil, planejamento e gestão cultural, enquanto políticas com continuidade, é algo muito recente, ainda em expansão e consolidação”, lembra Rodrigues.

O gestor cultural

Ainda que não exista uma cartilha sobre o perfil e os desafios do gestor cultural, o blog Acesso levantou, em pesquisas e com seus entrevistados, alguns traços que podem ser úteis e elucidativos para o debate a respeito deste profissional e de seu papel.

O gestor cultural seria alguém que…

•    Busca uma formação interdisciplinar, com conhecimentos de arte, cultura, planejamento, administração, marketing, economia e jurisprudência.
•    Está atento às novas tendências
•    Transita e faz a vez de intermediador entre o poder público, a iniciativa privada, o terceiro setor e a comunidade
•    Assume características técnicas, estratégicas e operacionais
•    Consegue lidar com a tensão inerente a seu ofício
•    Sabe trabalhar em equipe
•    Conhece a área cultural e suas nomenclaturas
•    Está apto a manejar imprevistos
•    Busca conhecer as necessidades do público
•    Sabe planejar e tem sensibilidade estética
•    Procura combater seus próprios preconceitos

Veja também as dicas de cursos e livros sobre gestão cultural:

O que ler:

Economia criativa
Organizador: Ana Carla Fonseca Reis
Editora Itaú Cultural

Economia da cultura – Ideias e Vivências
Organizadoras: Ana Carla Fonseca Reis e Kátia de Marco
Editora E-livre

Gestão cultural: profissional em formação
Autor: Maria Helena Cunha
Duo Editorial

Gestão cultural: significados e dilemas na contemporaneidade.
Organizador: Cláudia Leitão
Banco do Nordeste do Brasil

Gestão do patrimônio cultural integrado
Organizador: Silvio Mendes Zancheti
Editora CECI

O avesso da cena
Autor: Romulo Avelar
Duo Editorial

Organização e produção da cultura
Organizador: Linda Rubim
Edufba

Políticas culturais: reflexões e ações
Organizador: Lia Calabre
Editora Itaú Cultural

Teoria e prática da gestão cultural
Francisco Humberto Cunha Filho
Unifor

Onde estudar:

Associação Brasileira de Gestão Cultural

Centro Universitário Una

DUO

Fundação Clóvis Salgado

Fundação Getúlio Vargas

PUC-Minas

Senac

Unisinos

Universidade Cândido Mendes

Universidade Federal da Bahia

Universidade Federal Fluminense

USP

http://www.blogacesso.com.br/?p=2138

No mundo das artes, doar ainda é problema
Estadao – Camila Molina


No ano passado, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP renovou seu acervo com um conjunto de 40 obras do fotógrafo mexicano Pedro Meyer, pioneiro da fotografia digital há quase 30 anos. Para adquirir as obras, pagou uma taxa simbólica de US$ 1 mil e ainda contou com patrocínio de uma empresa de impressão de imagens. Criou-se, até mesmo, certo problema na alfândega quando as dezenas de peças chegaram ao Brasil "compradas" por um preço tão baixo. Na verdade, tudo não passou de uma estratégia conjunta entre o MAC e o artista para que as imagens, enfim, ajudassem a preencher a lacuna de fotografias contemporâneas do museu – os recursos eram para despesas de transporte, como diz a vice-diretora da instituição, Helouise Costa. "Da década de 1980 até hoje, quando a USP decidiu não mais dar verba para aquisição, apenas para manutenção, o MAC depende de doações."

Se alguém pensa que é fácil doar e receber obras de arte, o exemplo acima mostra que não é bem assim. No Brasil, este não é um problema específico apenas de um museu. Como as regras e as políticas de aquisição de obras para instituições ainda se firmam no País, os museus, sem verba para a compra de peças artísticas, têm de esperar a boa vontade de colecionadores ou dos próprios artistas que querem doar suas obras.

"Em termos genéricos, política de aquisição existe, mas é uma complicação", diz o curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Teixeira Coelho. Respeitando a vontade de anonimato de um colecionador, ele cita um exemplo recente vivido pela instituição: um colecionador queria ceder ao Masp a obra de um artista moderno estrangeiro, comprada no exterior, mas os impostos cobrados pela Receita Federal não faziam valer sua boa vontade. "Ou se concorda em isentar as doações de tantos impostos ou o museu tem de arcar com os impostos e, nesse caminho, quase sempre o doador desiste", diz Teixeira Coelho, que defende uma "ação concertada" entre os ministérios da Cultura e da Fazenda. "Todo mundo quer cultura, mas não quer pagar por ela", continua o curador, ainda emendando que há outro entrave: como hoje as obras de muitos artistas brasileiros se equiparam às de estrangeiros – uma peça do escultor Sérgio Camargo (1930-1990) de 1964 foi vendida recentemente em Nova York em leilão da Sotheby"s por US$ 1.594.500 -, "as pessoas pensam mil vezes antes de doar uma obra".

Hoje pela manhã, ocorre no Museu de Arte Moderna do Rio uma reunião solicitada pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, com diretores de instituições nacionais e representantes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) justamente tendo como tema a política de aquisição de acervos. Trata-se de uma continuidade de discussões sobre a questão, alavancada, ainda, pelo episódio do incêndio de obras de Hélio Oiticica (1937-1980) e de seu pai, o fotógrafo José Oiticica Filho (1906-1964), ocorrido em outubro, na casa da família dos criadores, no Rio – as peças deveriam estar em uma instituição, mas como familiares podem ceder as criações aos aparatos museológicos? "Desde 2003 há um edital do Ministério da Cultura de modernização de museus, que permite aquisição de obras, mas poucas instituições usam porque, primeiro, necessitam da qualificação das reservas técnicas. Nossa intenção é que tenhamos um edital específico de R$ 10 milhões para aquisição de acervo, via Petrobrás ou ministério", diz José do Nascimento Jr., do Ibram.

Outras propostas de estímulo à doação/cessão são a de lei do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR) de dedução de 6% do Imposto de Renda do valor de obras de arte doadas (leia ao lado) e o anteprojeto de Michel Etlin (Associação Nacional das Entidades Culturais Não-Lucrativas) também de incentivo fiscal para patrimônio de herança – e pode-se citar ainda os editais da Caixa Econômica Federal e da Funarte, ambos da esfera federal. "Governos estaduais e municipais também têm de adquirir", diz Nascimento.

Apesar de as instituições terem seus conselhos consultivos para decidir se a obra tem relevância para entrar no acervo do museu – e "a maioria não é aceita, é um ônus para a instituição", como diz Helouise Costa -, a doação é a principal fonte de aquisição. Mas esta é uma época diferente das décadas de 1940 e 50, quando figuras como Ciccillo Matarazzo e Assis Chateaubriand doaram suas coleções preciosas para criação do MAC e Masp. Já houve casos notáveis, como o da tela Banhista Enxugando o Braço Direito, de Renoir, que foi cedida em 1948 ao Masp por uma lista de nada menos do que 26 doadores. Era a sociedade se mobilizando em nome da arte.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091203/not_imp475827,0.php

Democratização cultural

Parceria PUC-SP: Democratização cultural em foco  

Por Blog Acesso

 

Leis de incentivo, acesso a bens culturais, desigualdade e produção artística no Brasil. Esses e muitos outros temas foram discutidos no evento “Democratização cultural em foco”, uma parceria entre o Instituto Votorantim e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O objetivo da iniciativa foi disseminar a causa da democratização cultural no ambiente universitário e gerar troca de conteúdos entre o Instituto Votorantim, o meio acadêmico e os jovens universitários, por meio de atividades gratuitas. O programa de atividades iniciou-se no dia 10 de novembro, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), com o debate “Contexto da produção X acesso à cultura no Brasil”. No encontro, especialistas em produção cultural e artística discutiram caminhos para ampliar o acesso à cultura produzida no País.

O evento teve a participação de Helena Katz, professora e coordenadora do Centro de Estudos em Dança da PUC-SP, Aimar Labaki, dramaturgo e roteirista, e da escritora Márcia Tiburi, professora de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura na Universidade Mackenzie e participante do programa Saia Justa, do canal GNT. A mediação foi feita pelo gerente de Desenvolvimento Sociocultural do Instituto Votorantim, Lárcio Benedetti.

Contexto da produção X acesso à cultura

"A lógica da produção cultural exclui o público”, afirmou Helena Katz. Para ela, é necessário modificar essa cadeia “pensando no consumidor dos bens culturais". Para isso, sugeriu a elaboração de uma agenda de tarefas que priorize a população, que deve se acostumar a consumir arte, apreciar espetáculos, além de participar de oficinas e cursos de formação artística. Dentro dessa agenda, têm de estar, entre outras questões, a mudança dos mecanismos de financiamento, que hoje delegam poder de decisão às empresas, e a revisão do sistema da meia-entrada, que aumenta o valor dos ingressos.

Esse conjunto de fatores, no entender de Helena, sustenta uma lógica distorcida na produção cultural. “Todo mundo quer ingresso grátis, mas ninguém chega numa loja e pede uma roupa de graça. O valor de troca dos bens culturais não está claro. Arte é trabalho, não hobby. A cultura do ingresso gratuito não educa as pessoas a pagarem por cultura”, afirma. Helena avaliou que muitos programas de democratização cultural são hoje pensados simplesmente como treinamento de habilidades: “Isso é uma leitura impositiva do tema, algo do tipo: ‘eu sei o que é bom para você. Você não sabe porque não estudou nos mesmos bons colégios que eu; você veio da periferia’”. Democracia cultural, para a debatedora, “é formação de público, é aprender a ver uma peça de teatro, ir ao cinema, ler e consumir arte".

Aimar Labaki pautou sua fala na produção teatral, na formação de plateia e no acesso aos eventos artísticos produzidos no Brasil e vistos por uma parcela ainda muito restrita da população. "A arte é subconjunto da cultura, é reorganizar elementos do sensível dialogando com a tradição", afirmou, antes de defender que todos os tipos de arte pedem uma atitude ativa do expectador, impossível de ser desenvolvida sem um acesso constante às produções.  “A arte deve instaurar uma crise em mim”, explicou, colocando-se no lugar do espectador. “Formar plateia não é só dar elementos racionais para que as pessoas entendam aquilo. É preciso dar acesso permanente às obras de arte para que o público crie espaço interno para dialogar com essas obras. A plateia precisa ver um show, uma exposição ou uma peça de teatro uma vez por semana, para criar um leque amplo de referencias”, defende.

Ao avaliar o momento atual do Brasil sob a ótica dos produtores culturais, o dramaturgo demonstrou-se otimista: "Nunca antes no Brasil a cultura teve tanto dinheiro disponível para produzir”, afirmou Labaki. “Mas a maioria da população ainda não está consumindo essa produção como deveria. E incentivar a fazer arte ajuda a formar público, faz com que as pessoas se interessem mais pelas obras”, afirmou.

Para Márcia Tiburi, última debatedora a expor, quando se fala em acesso, na verdade se fala de tudo o que divide ricos e pobres. “A cultura no Brasil só existe do ponto de vista da burguesia, dos que têm acesso e produzem arte e cultura”, afirmou. Tendo em vista esse quadro, a professora avaliou que existe um “paradoxo da cultura” no Brasil. “A cultura aqui não valoriza a cultura. A cultura não é problema de ninguém. Eu discordo da Helena porque não gosto de tratar a cultura como mercadoria”, afirmou.

Defendendo o papel libertador da arte, Márcia destacou o teatro, que classificou como “a contramão do capitalismo”. Daí sua defesa em evitar discutir relações de consumo na arte. “A diferença entre o consumidor e o usuário é que o primeiro destrói, o segundo usa e guarda, recicla”, afirmou.  Márcia defendeu ainda que sem educação de qualidade não é possível acessar a cultura. “O casamento da cultura com a educação tem que ser em todos os níveis: federal, estadual e municipal”. Entretanto, ela considera que não há interesses governamentais mobilizados em promover essa mudança. “Democracia não é capitalismo. E o que vemos no Brasil é a redução da vida ao capital”, afirmou.

Estruturação de projetos

A segunda etapa do evento aconteceu no dia 14 de novembro com a oficina “Como estruturar um projeto cultural com foco no acesso”, ministrada por Sharon Hess, diretora da Articultura e especialista em captação de recursos. A atividade foi baseada no Manual de Apoio à Elaboração de Projetos de Democratização Cultural, ferramenta desenvolvida pelo Instituto Votorantim para estimular e qualificar a formulação de projetos voltados ao acesso cultural, auxiliando proponentes de todo o País.

Na oficina, foram discutidos vários casos de projetos que trabalham com a questão do acesso à cultura no Brasil. "A maioria das pessoas aponta a captação de recursos como a principal dificuldade para colocar uma ideia em prática, mas muitas vezes o problema não está no modo de captar, mas na estratégia de gestão, divulgação e até mesmo na definição do projeto, que deve ser clara e objetiva", explica.

Como exemplo de projeto bem elaborado, Sharon citou o Doutores da Alegria, que se tornou autossustentável ao consolidar a marca e conquistar credibilidade. Antes de propor aos participantes um exercício de aplicação dos conceitos discutidos, ela deixou uma dica para produtores, estudantes e artistas: a leitura de A Estratégia do Oceano Azul (Kim e Mauborgne, editora Campus), obrigatória para quem pretende elaborar um projeto e, sobretudo, vê-lo sair do papel, virar realidade e ajudar a transformar o Brasil.

A apresentação utilizada na oficina “Como estruturar um projeto cultural com foco no acesso” está disponível on-line. Clique aqui para baixá-la.

Papo

Sob o domínio do público

Inimigo do Mickey, fã do Brasil, Lawrence Lessig é o mais influente defensor da liberdade no mundo virtual (isso inclui os downloads de música que você anda fazendo)

Pedro Burgos

 

Para o americano Lawrence Lessig, professor da Universidade Stanford, a internet poderia ser a nova biblioteca de Alexandria, disponibilizando todo o conhecimento cultural do planeta. Só não é assim por culpa da lei. Ele explica: para filmar Fantasia, em 1940, Walt Disney misturou um poema de Goethe, música de Paul Dukas e balé de Stravinsky. Hoje, fazer algo parecido requer o pagamento de fortunas aos donos dos direitos. Ou paciência para esperar os 95 anos que uma obra demora para cair em domínio público nos EUA — culpa da "lei do Mickey", que ganhou esse apelido por ter a validade estendida sempre que os direitos da Disney sobre o roedor estão prestes a terminar. Lessig combateu a lei na Suprema Corte.

Acreditando que a criatividade está engessada pela legislação, Lessig criou o conceito do creative commons, o , cujo mote é "alguns direitos reservados". Fiel ao que prega, disponibilizou na internet (www.lessig.org) seu último livro, Free Culture. Com tradução em português — ele acredita que o Brasil será o líder na batalha pelo mundo virtual livre.

 

Por que você abraçou a luta pela transformação da propriedade intelectual?

Sou apenas um advogado com consciência de culpa. Em um certo momento da vida, comecei a reconhecer distorções e malefícios que as leis de direitos autorais estão causando – e como nós advogados somos responsáveis por isso. Minha motivação foi adicionar um pouco de sanidade ao lado dos advogados nesse debate. E isso acabou virando uma causa.

 

No Brasil, há uma campanha antipirataria cujo mote é: "Você não roubaria um carro. Por que roubar um filme?". Existe diferença entre esses dois atos?

Há diferenças claras. Quando você rouba um cd, por exemplo, a loja tem um produto a menos para vender, diferente de quando você faz um download via internet. O que não quer dizer que eu defenda a pirataria. Não acho certo que as pessoas tenham acesso a um conteúdo que o detentor dos direitos autorais não quer disponibilizar. Mas também não acho que baixar músicas pela internet deva ser o foco do debate. As regras que temos hoje foram feitas para proteger os investimentos de Hollywood, mas acabaram inutilizando o imenso potencial criativo e cultural da internet. O modelo atual de proteção aos direitos autorais é uma licença compulsória para a distribuição de conteúdo. É preciso saber filtrar as coisas que precisam de proteção e separá-las daquelas que não precisam – como as idéias científicas. Há várias oportunidades para experimentar e é o que devemos fazer neste momento.

 

A experiência do creative commons é uma tentativa nesse sentido?

A idéia é facilitar a distribuição dos trabalhos de artistas e autores. A licença do creative commons dá algumas liberdades à pessoa que quiser usar aquela obra sem ter de pedir autorização ao autor primeiro. O tem sido extremamente bem-sucedido. Crescemos mais rápido do que pensávamos. Segundo o Yahoo!, já existem mais de 12 milhões de links com obras adotando o selo na internet. Isso me encoraja, principalmente sabendo que novas nações estão adotando essa idéia.

 

Qual a relação entre criatividade e leis menos rígidas de direitos autorais?

Reinterpretações de coisas antigas têm sido uma parte muito importante da nossa cultura. Mas fazer isso, hoje, não é tão fácil. Por exemplo: para remixar uma música legalmente é preciso permissão do autor e de quem gravou a canção. Essa permissão é praticamente impossível de ser conseguida antes de você fazer o remix, e é incerto que ela acontecerá após o trabalho ser executado. Então, na prática, o sistema atual impede que a maioria das pessoas possa remixar legalmente uma música e, portanto, a cultura. Eu não quero dizer aqui que não precisamos de proteção aos direitos autorais. Queremos incentivar novos trabalhos criativos e sabemos que uma das formas de atingir essa meta é garantir ao autor que seu trabalho será protegido. Mas acontece que as grandes empresas de entretenimento estão usando as leis para concentrar o controle artístico.

 

Você acha que indústria de entretenimento conseguirá desenvolver ferramentas 100% antipirataria?

Certamente é possível. O problema é a indústria fazer isso de maneira tão eficiente que acabe bloqueando outras formas de inovação e criatividade. Em vez de usar a tecnologia para "remixar" a cultura, as empresas preferem gastar tempo criando um cd anticópia. Estou certo de que a tecnologia antipirataria será parte do nosso futuro. O desafio é ter certeza de que isso não vai ser a única parte.

 

Por que o senhor acredita que alguém comprará seu livro em vez de baixá-lo gratuitamente via internet?

Ainda não vi números sobre as vendas do Free Culture, mas creio que a distribuição online gratuita é uma técnica que aumenta as vendas, não que as reduz. Muitas pessoas que nunca teriam contato com o livro puderam baixá-lo e algumas decidiram comprá-lo depois. Por enquanto é uma opinião, ainda precisamos ver se ela realmente funciona.

 

Quais foram suas impressões em sua última visita ao Brasil, no Fórum Social Mundial?

O Brasil é a nação mais importante tanto no movimento pelo software livre quanto no de cultura livre. A última vez que estive no país foi maravilhoso. Conheci o programa Mil Pontos de Cultura (projeto do Ministério da Cultura que leva computadores com bibliotecas multimídia – rodando em Linux – a comunidades carentes) e achei extraordinário, nunca havia visto algo parecido. O que vocês e o governo estão fazendo pode ser a coisa mais importante nessa batalha. O Brasil está agindo e pensando independentemente – de maneira crítica – e forçando outros países a questionar os dogmas que as autoridades americanas sempre trazem à discussão.

 

Como você imagina a indústria do entretenimento nas próximas 2 décadas?

Acho que vai depender muito do que acontecer nos próximos 5 ou 6 anos. Há uma chance real de que as pessoas passem a compreender melhor o atual momento em que estamos vivendo e a oportunidade que temos diante de nós. Especialmente com a liderança de países como o Brasil, que pode ajudar várias nações a analisar e entender melhor a situação para mudar suas leis.