3/2/11

Revolução cultural no Brasil: um devaneio para Dilma

A grande revolução brasileira: se tornar uma nação para todos os filhos. Esse ideal aparece ao longo dos séculos em situações diversas, conhece avanços e retrocessos, mas continua sendo um ideal. Concretizá-lo é o nosso destino.

Não poderia ser muito diferente com relação à cultura. Impossível pensar em grandes transformações sem uma noção ampliada do fenômeno, capaz de absorver conceitos e práticas que se espalham pelo nosso território, definindo-o.

Cultura como direito de todos os cidadãos. O papel das mídias nesse artesanato de democracia. As concessões e os conteúdos. A capacidade crítica. Os direitos autorais e coletivos. A memória. O diálogo com o mundo. As cadeias produtivas das artes…

Ora, tudo isso tem sido objeto de discussão e tem aparecido como propostas governamentais, projetos de lei, programas inovadores, deixando um saldo positivo de transformações sobre o qual deverá atuar a ministra Ana de Hollanda.

Há, todavia, uma fronteira indispensável que tem recebido muito menos atenção do que deveria. Um simples devaneio ilustra o caso: o que aconteceria com a vida cultural brasileira se de repente surgisse 220.000 corais mobilizando 6.600.000 vozes?

Parece coisa de doido? Nem tanto. Bastaria que cada escola brasileira criasse um coral em 2011. Villa-Lobos já sonhou com isso. Pois é, são 220.000 escolas envolvidas com formação básica e cerca de 60 milhões de estudantes ávidos por identidade e pertencimento.

Agora imagine o impacto cultural causado pela criação, em cada escola, de também um grupo de dança, outro de capoeira, um grupo de teatro, um clube de leituras, um festival de poesia e um clube de cinema… Nada do outro mundo, com incentivo e direcionalidade as comunidades escolares podem fazer isso.

Já pensou a qualidade que seria filtrada por essa pirâmide gigantesca de conhecimento? E o impacto dessas atividades sobre a formação de mercados, especialmente o nível de qualidade, a produção de conteúdos, as visões de mundo…

Acho que basta esse devaneio preliminar para mostrar que o caminho de uma verdadeira revolução cultural no Brasil passa necessariamente pela Escola… e que não é da ordem do impossível.

Agora, precisa entender a escola como uma grande sinapse entre a vida familiar e comunitária, o tesouro cultural da humanidade e os estímulos da mídia… Pensá-la como lugar de vivências e de experimentação cultural, sabendo que o projeto pedagógico não existe sem a consciência de sua dimensão cultural.

Há avaliações internacionais do nosso sistema educacional que criticam o capital cultural que mobiliza. Houve em nosso País, desde a ditadura, e há no mundo atual de forma generalizada, um definhamento da capacidade da escola de dialogar com o imaginário, e de mobilizar o sujeito desejante.

Como sabemos, quem vem pautando o imaginário da população é a novela das oito e congêneres. A revolução cultural necessária passa pela diversificação do controle da mídia e pela potencialização dessa rede de 220.000 pontos de cultura chamada Educação.

Há documentos norteadores importantes produzidos pelo próprio governo em torno da discussão sobre currículo e cultura – Cf. Moreira e Candau no portal do MEC. Mas o pensamento sobre multicuturalidade parece não atingir a etapa necessária do empoderamento do aluno como criador, a ênfase recai na fruição crítica.

Obviamente, essa ciranda de mobilização cultural das escolas não se restringe às artes. Trata-se da abertura para discutir o Brasil, discutir o mundo, falar de história, filosofia, internet, ancestralidades, direitos humanos… De forma proativa. Criando papéis e gozos.

Os anos vão passando e ‘educação e cultura’ não conseguem produzir resultados convincentes de integração e sinergia. Como estabelecer um diálogo estruturante entre essas duas esferas em todos os níveis – federal, estadual e municipal? Obviamente não existe. Na frieza dos organogramas não há estruturas de governo com a finalidade precípua de promover tal integração.

Trata-se, portanto, de algo que precisa ser firmado como prioridade de governo. Independente da boa vontade dos ministros envolvidos, que parece certa – já houve um movimento interessante nessa direção entre 2009 e 2010-, é preciso perceber o valor estratégico dessa questão, declarando-a prioridade nacional.

Educação como sistema imunológico da coletividade, sendo a Cultura a garantia de que há investimento sério na direção da formação de jovens cidadãos com capacidade crítica e criadora.

Fica o devaneio: que o futuro da sociedade brasileira seja discutido em milhões de pequenas rodas, e que os jovens redescubram a ousadia da cultura como estratégia cognitiva, especialmente no redesenho daquilo que chamamos currículo, digo, vida.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.

Anúncios