Sabedoria que brota da terra — EcoDesenvolvimento – Sustentabilidade, Meio Ambiente, Economia, Sociedade e Mudanças Climáticas.

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Aos 93 anos, a Dr. Ana Primavesi dá exemplo de vitalidade e sabedoria/Foto: Agência de Notícias do Paraná

Ela já passou dos 90 anos, não come açúcar há quatro décadas e bebe pouquíssima água (sempre natural), afinal “é só o que o corpo precisa”. Esses são apenas alguns dos segredos da agrônoma Ana Primavesi, que mesmo se aproximando do centenário mantém saúde e disposição para cuidar das plantações e viajar o mundo espalhando sua sabedoria e ensinamentos sobre cuidado com a terra e respeito à natureza.

Nascida na Áustria, ela se mudou com o marido para o Brasil após a Segunda Guerra e foi uma das pioneiras da agricultura ecológica no país. Hoje a Dr. Ana Primavesi é uma das profissionais mais respeitadas quando o assunto é compreender os sinais da terra e encontrar formas de aumentar a produção, sem devastar a natureza.

Com sua voz mansa e ainda carregada do sotaque austríaco, ela conversou com o EcoD e falou um pouco da sua relação com a terra e como precisamos encontrar um equilíbrio entre os interesses humanos e a manutenção da vida no planeta.

EcoDesenvolvimento.org: A senhora tem uma grande intimidade com a terra, cheira para saber se a matéria orgânica foi enterrada profundamente e sente sua textura entre as mãos como indicativo do equilíbrio de nutrientes. Qual a importância desse contato para a senhora?

Ana Primavesi: É a base de tudo, porque se você não sabe, não sente e não vê a terra, como vai fazer agricultura?

A senhora defende uma agronomia que, no seu modo de ver, “não compete com as leis da natureza”. É dessa forma, competindo com a natureza, que estamos produzindo alimentos hoje?

Não é que compete ou não compete. O problema é que se você planta de uma maneira diferente de como o planeta faz pode ser que você colha por mais alguns anos, mas depois a terra vai estar de tal maneira estragada que não produz mais quase nada, muito pouco. Agora vieram os adubos químicos, as máquinas e tudo isso para aumentar a produção. Mas olha, no ano 1200 depois de Cristo, as pessoas produziam na Índia quatro vezes mais do que se produz hoje. Então o adubo químico não foi a salvação, foi o que estragou o solo.

Por que esses métodos de cultivos aplicados antigamente eram mais avançados que os de hoje?

Não se trata de métodos, nós temos é que voltar a respeitar a natureza, porque se a gente não respeita tudo estraga e tudo está desaparecendo. Se eu faço uma agricultura só orgânica não resolve. Porque o orgânico é muito bonito, mas não é como a natureza faz. Você deixa muita coisa que a natureza faz de fora e o que queremos é colocar tudo no eixo de novo. A nossa agricultura atual é simplesmente para fazer a terra produzir apesar de toda a sua destruição. Um exemplo é a mata amazônica, que sofre uma catástrofe, porque eles começaram a desmatar sem pensar que ali tem só 3 cm de solo orgânico. Se hoje você for na Amazônia, vai ver que já tem grandes áreas abandonadas, não se usa nem mais para gado. Tem mato, mas a mata mesmo não volta. O que nos fizemos até agora foi só estragar e não recuperamos nada, porque a gente acha que melhora (com o uso dos novos métodos), mas o melhor sistema é sempre da natureza. Nós vivemos há 5 mil anos com a agricultura e antigamente a terra era muito mais produtiva. Pode ter certeza que onde tiver pesticida, a terra está estragada.

Ainda existe alguma de forma de consertar o estrago na Amazônia?

É complicado. A Amazônia levou milhões de anos para se formar e agora nos a estragamos com a máxima facilidade. Lá quase 80% dos solos é areia quase pura. Então é uma terra paupérrima e mesmo assim existe aquela mata bonita. A natureza conseguiu conciliar os fatores e fazer ali uma das matas mais frondosas do mundo.

O que pode ser feito em outras regiões para termos uma agricultura mais sustentável?

O sustentável é quando eu mantenho a terra agregada. Eu acho que a agricultura não pode ser industrializada, é preciso ter um contato com a terra. A maioria das pessoas procura por milagres, mas o único milagre é você ter contato com a terra e esse contato vai permitir que você produza bem. As pessoas abusam das máquinas e dos produtos, mas se a terra estiver toda estragada, não vai resolver nada.

Então as pessoas precisam entender melhor a terra para produzir mais?

Claro. A natureza por si sempre visa a maior produção possível. Se nós acharmos que podemos fazer melhor, só pioramos. Porque a maior parte das pessoas tem um objetivo. Ele não enxerga o inteiro, mas só uma coisa e trabalha com isso na cabeça. Só que assim destrói tudo ao redor para chegar a esse fator. Isso é uma tristeza.

O homem acha que é mais inteligente que a natureza?

É, mas a natureza vê o inteiro e o homem não. O homem só enxergar um fator. Melhora um lado, mas estraga o outro. A questão é que nós temos que fazer exatamente o que a natureza faz.

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Em 1946, o casal Ana e Artur Primavesi saiu da Europa e veio para o Brasil/Foto: Acervo

A senhora disse que assistiu ao surgimento dos princípios da agroecologia no Brasil dentro da sua casa. Como avalia a situação da área hoje?

Está começando a tomar conta porque as pessoas estão vendo que é a única maneira de produzir. Mas ainda existe um problema bastante grave, que ela não pode ser aplicada em fazendas enormes. No Mato Grosso, por exemplo, existem fazendas de 320 mil hectares. Esses locais são mecanizados de tal maneira que os computadores fazem a análise química, a adubação, a aração, tudo automaticamente, e só uma ou duas pessoas no escritório controlando tudo. E isso só é possível no Brasil, muitos países já estão sem terra para produzir. Na China a população aumenta em 200 milhões por ano. A pergunta é, até quando eles conseguirão viver com essa terra?

Essa é uma questão realmente importante, já que a expectativa de crescimento da população mundial é alarmante. Como a humanidade pode vencer esse desafio e conseguir alimentar essas bilhões de pessoas sem destruir o planeta?

Não da maneira que é feita hoje aqui no Brasil, onde se tira a plantação de alimento para plantar cana-de-açúcar e soja para produzir álcool, e o que importa os alimentos? Assim não vamos ter muito tempo.

Qual seria a solução para esse problema?

Nós temos que ficar um pouco mais modestos, querendo não só combustível, mas também alimento capaz de manter todo mundo. Não é importante que todo mundo tenha um carro, é muito bonito, mas não é necessário. Mas todo mundo precisa de comida, carro não. Não é uma necessidade, é um luxo.

Por que o futuro do Brasil está ligado à terra?

O futuro da humanidade está ligado à terra, não só o Brasil. Se não tomarmos conta da nossa terra de maneira correta, não vamos sobreviver. A água esta diminuindo, os rios menores estão secando. Acha que sem água nós vamos sobreviver? Ela é a base de toda a vida. A chuva só cai onde tem mato, por isso na Amazônia tem chuva todos os dias. Agora lá onde já não tem mata pode ficar até quatro meses sem um pingo de água. Eu não sei o que eles estão querendo com toda essa política. O nosso presidente falou que onde tem pobres ele permitia que desmatasse. Tudo bem, mas onde não tem mais mata o pobre também não vai sobreviver. Nem o pobre, nem o rico.

Está chegando a hora de substituir a máquina pelo homem?

Nós temos que ter de novo a agricultura menor. Em alguns lugares você não ver mais nenhuma pessoa na lavoura. Com isso você perde o contato com o solo e não tem como saber o que ele precisa e o que é mais adequado. Eu não sei como vai ser em lugares como Paraná e Santa Catarina, antigamente lá era tudo pequeno e o agricultor trabalhava sua terra. Hoje é tudo mecanizado, as árvores desapareceram e cada vez que chove tem enchentes. Claro que não dá para alimentar as cidades só com produtores pequenos. Mas o que acontece é que antigamente existiam pequenos, médios e grandes agricultores, não apenas os grandes, como hoje. Claro que com cidades enormes você vai precisa de áreas enormes para produzir alimentos, mas você não precisa destruir tudo por causa disso.

Estamos nos afastando muito da natureza?

Claro que sim. Está todo mundo indo para a cidade. E lá tem sim algumas vantagens, mas a alimentação por enquanto ainda é feita no campo. Isso está de tal maneira que uma vez uma criança veio aqui nos visitar e lhe mostrei uma vaca, dizendo que era ela quem dava o leite que a garotinha tomava. E ela disse: “Que horror! Eu tomo leite de um bicho desses? Ah não, vou dizer pra minha mãe que nunca mais tomo leite”. O pessoal da cidade nem imagina mais como as coisas são produzidas. Ninguém valoriza mais as pessoas do campo. Elas tem a impressão de que a comida nasce nas prateleiras do supermercado.

Se a senhora fosse obrigada a viver longe do campo, em uma metrópole, como São Paulo, acha que conseguiria?

Não… Sabe, eu tenho um problema na perna, ela nem sempre quer o mesmo que eu, mas mesmo assim aqui no campo eu saio, caminho, vou nas plantações, em qualquer lugar, onde quiser. Na cidade, o que eu faço na rua? Passear em São Paulo? Impossível. Aqui no campo não, a gente anda sem preocupações, só com cuidado com as cobras.

Tags: Biodiversidade , Vida e Saúde
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