O CONSTRUTIVISMO QUE DESTROI

Roberto Boaventura da Silva Sá

 Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT

rbventur26@yahoo.com.br

A Revista Veja (RV) – da qual não sou assíduo leitor – enfim, conseguiu, não sem ressalvas, me contemplar por meio da matéria “Salto no escuro” (Ed. de 12 de maio pp.), assinada por Marcelo Bortoloti. Ali, foram expostas as mazelas do construtivismo que, conforme a parte final do lead (resumo do texto), trata-se “de um sistema adotado por países com os piores indicadores de ensino do mundo”.

A base da matéria de Bortoloti foi uma pesquisa da UNESP; aliás, no campus de Araraquara, encontra-se um respeitável núcleo de estudo sobre esse tema, sob liderança do Prof. Dr. Newton Duarte. De minha parte, alio-me às reflexões expostas por aquela equipe. Por cá, tenho sido – há algum tempo – uma das poucas vozes a dizer publicamente com todas as letras que as novas práticas pedagógicas – precedidas da extrema desvalorização salarial e social do professor – estão enterrando nossa educação. Detalhe: covardemente, ninguém entra no debate. Talvez, agora, a Veja falando…

Mas por que o construtivismo é perverso? Por que a perversidade é difícil de ser percebida ou assumida? Inicio pela parte final: porque antes de tudo ele está na absurda  lógica do politicamente correto desta esvaziada pós-modernidade, respondendo, assim, a interesses do neoliberalismo/capitalismo. O construtivismo, antes de tudo, contemplaria a noção de alteridade, respeitando, grosso modo, o conhecimento que o outro (no caso, o aluno) já traz consigo. Sobre isso, Veja diz que “A teoria do suíço Jean Piaget deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real”.

Assim, o conhecimento abstrato de tudo o que esteja fora da realidade do aluno está comprometido, pois se encontra secundarizado ou olvidado no rol dos conteúdos. Numa caricatura, diz a matéria de Veja: “como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade”.

No construtivismo, é dito ainda que “as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: ‘O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas". Já o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP), adverte: "As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes". Isso tudo porque os construtivistas negam o acúmulo do conhecimento construído. Inacreditavelmente, negam os clássicos. Aos construtivistas, um professor não ensina, apenas serve como mediador na relação ensino-aprendizagem. Um absurdo!

Depois desses e outros registros, a matéria de Veja fez um apelo ao retorno das práticas tradicionais na educação, ao dizer: “Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência”.

É por aí mesmo; e se não for, a escola não é mais necessária. Assim, ou país retoma, com rigor, essa “liturgia de ensino” ou verá, cada vez mais, coisas trágicas, como, p. ex., a “importação” de mão-de-obra especializada de outros países (Argentina, Chile, México…) para ocupar postos de trabalho no Brasil, como foi noticiado pela mídia na semana que passou. Tal notícia deveria provocar reflexões. A principal delas seria detectar quem mais rapidamente perde com manutenção de uma educação falida. Para qualquer dúvida, afirmo: são os filhos dos trabalhadores; ou seja, aqueles que se encontram nas classes sociais inferiores. Alguém prova o oposto?

PS. para as ressalvas: 1) Há controvérsia sobre ser Vygotsky construtivista, como é afirmado; 2. o grupo Abril, que edita a RV, é o mesmo da Revista Nova Escola, de aberto teor construtivista. A Abril é um dos grupos mais radicais na defesa do neoliberalismo e da pós-modernidade: sustentáculos do estágio atual do capitalismo (!).

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