Estatísticas do consumo

Por Blog Acesso

 


Já dizia o sociólogo mexicano Nestor Canclini, emConsumidores e cidadãos – conflitos multiculturais da globalização, que “o consumo serve para pensar” sobre os “valores simbólicos e estéticos da racionalidade consumidora”. Nessa linha, foram desenvolvidas duas pesquisas sobre oferta e consumo cultural brasileiros, finalizadas em 2009, que ajudam a refletir sobre o perfil e o cenário do consumo de bens culturais no Brasil. São elas: Cultura em números – Anuário de Estatísticas Culturais 2009, o primeiro anuário de estatística da área cultural, desenvolvido pelo Ministério da Cultura – MinC; e Consumo de cultura do brasileiro, organizada pela Fecomércio do Rio de Janeiro.

Desenvolvido entre 2007 e 2008, pela Gerência de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Políticas Culturais do MinC, com base em dados de 2006, oAnuário de Estatísticas Culturais 2009 está longe de ser uma pesquisa avulsa promovida pelo Ministério. Ele é parte das ações de consolidação do Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC), um dos pilares do Plano Nacional de Cultura.

Andrea Gomes, pesquisadora do setor de Economia da Cultura, da Secretaria de Políticas Culturais do MinC, participou do planejamento e análise do estudo, à época sob a coordenação de Pablo Martins, do extinto setor de Estudos e Pesquisas. Ela rememora que a ideia da pesquisa veio da constatação de que o Brasil precisava de um mapeamento no âmbito da cultura, e mais, de um único instrumento de estudo que congregasse dados da área, desenvolvidos por esferas diversas como o IBGE e o IPEA,  para pesquisadores e sociedade em geral. “Trata-se de um documento bastante significativo. Entre outros fatores, observa a diversidade da cultura nacional; revela o interesse da sociedade civil por conhecer e compreender seus resultados; mostra que a política cultural no Brasil tem sido pensada a partir de pesquisa investigativa, de dados concretos; e ainda estimula o Governo a continuar trabalhando na geração de informações, úteis para a elaboração de políticas públicas de cultura”, diz Andrea Gomes.

Para a composição do anuário, os pesquisadores lançaram mão de dados quantitativos levantados por fontes diversas, com destaque para oSuplemento de Cultura da Pesquisa de Informações Básicas Municipais – MUNIC 2006, documento fruto de uma parceria entre o IBGE e o MinC. As informações analisadas foram divididas em cinco áreas – oferta da cultura, demanda da cultura, indicadores culturais; financiamento e gestão pública da cultura –, abrangendo as mais diversas expressões culturais, entre elas patrimônio, teatro, artes plásticas, literatura e cinema.

No que tange as revelações, a pesquisa mostrou que, entre os anos de 2005 e 2006, o número de equipamentos culturais, como rádios FM locais (-33,1%), cinemas (-4,3%), livrarias (-3,1%), e rádios AM locais (2,5%), caiu em certos municípios brasileiros. Enquanto em outros, o aumento de equipamentos como teatro/salas de espetáculo (1,5%), bibliotecas públicas (4,8%) e museus (7%) foi surpreendente.

No quesito consumo, vale a máxima de que, quanto maior o grau de escolaridade, maior o consumo cultural (tabela 1). Assim como existe uma tendência de maior consumo cultural entre aqueles de maior renda, com exceção do consumo de televisão aberta (tabela 2).

Tabela 1

Tabela 2

Sobre a despesa familiar com crecreação e cultura, os gráficos mostram que o porcentual de investimento varia de R$ 44,76 a R$ 17,87, conforme a faixa etária, sendo os níveis mais elevados localizados entre pessoas de 40 a 60 anos.

Esses dados são importantes para diagnosticar “o consumo como lugar de distinção entre classes e grupos”, mas é preciso lembrar que, hoje, eles já estão defasados, uma vez que foram coletados há cinco anos.

Microcosmo
Em seu segundo ano de realização, a pesquisa da Fecomércio foi efetuada em 2008 e ouviu mil entrevistados, de 70 municípios brasileiros. O estudo chegou à conclusão de que o consumo de produtos culturais permaneceu estável no intervalo entre 2007 e 2008. Indo de encontro à pesquisa do MinC, os números confirmaram que a “variação do consumo de cultura está fortemente relacionada ao grau de instrução: enquanto apenas 11% dos que possuem nível primário leram pelo menos um livro em 2008, entre os entrevistados que possuem nível superior esse porcentual foi de 74%”.

Se a pesquisa do MinC ficou num nível mais macro, o trabalho desenvolvido pela Fecomércio entrou em detalhes sobre o consumo cultural. Descobriu, por exemplo, que  o “maior valor [monetário] médio, considerado justo pelo entrevistado, foi atribuído ao livro”, seguido por shows de música e espetáculos teatrais. Segundo as pesquisas, a família brasileira destina à cultura R$65 por mês, o que equivale a 4,4% de seu orçamento, com destaque para o consumo de livros. 30% dos entrevistados afirmaram terem lido um livro em 2008. Em termos comparativos, entre os portugueses, conforme o relatórioCultura 2008, disponibilizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal, em dezembro de 2009, a taxa de leitores é maior, ainda que os jornais lusitanos a considerem baixa. Cerca de 43,7% dos portugueses abordados leram um livro e 4,6%, mais de 12 livros no ano.

Curiosamente, o Brasil é um dos principais importadores de livros para Portugal. Aliás, com relação à balança comercial lusa, o estudo revela que Portugal importa quatro vezes mais bens culturais do que aqueles que exporta, numa proporção de R$277 milhões de euros para 72 milhões de euros, respectivamente.

A pesquisa portuguesa indica dados com os quais ainda não podemos contar no Brasil. Segundo Andrea Gomes, do setor de Economia da Cultura, da Secretaria de Políticas Culturais do MinC, “a pesquisa precisa incorporar novas variáveis em seu levantamento. Além disso, o próximo Anuário deve atualizar os dados de acordo com estudos mais novos”. Só nos resta refletir sobre as informações que temos e esperar por novos números para desenvolver uma série histórica.

O Acesso quer saber a sua opinião: o que você acha sobre os dados de consumo no Brasil? Os dados da pesquisa se aplicam à realidade da sua região?

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