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Quinze anos de Graduação em Produção Cultural

Por Blog Acesso

 

Na contramão da postura histórica de considerar a cultura como um assunto estanque, existe, hoje, um movimento de afirmação da cultura enquanto tema transversal a todas as atividades humanas, sejam elas de cunho econômico, científico, de saúde ou educação. Um dos adeptos desse pensamento, o dramaturgo Alcione Araújo destaca a necessidade de tratar, especificamente, cultura e educação como temas indissociáveis para um real avanço da humanidade.

No artigo Esquizofrenia na educação e cultura, publicado na Z Cultural, revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ, Alcione fala dessa associação como vital para a construção de uma sociedade, no caso a brasileira, mais equilibrada e preparada para os desafios do futuro. “A história reconhece na aliança entre educação e cultura a primazia de criar sonhos e inventar meios de realizá-los. O valor simbólico da cultura fecunda o processo civilizatório, dos valores às leis, da política à vida. A herança de colonizado, a exclusão social e a elitização da cultura atrelam o futuro da produção artística ao que a educação lhe reservar – a cultura é dependente da educação. Se ela não cumpre sua missão, sufoca as artes. Não se pode pensar a Educação sem a Cultura, nem a Cultura sem a Educação”.

A fala do dramaturgo serve perfeitamente ao tema que se quer levantar nessa matéria, uma vez que a formação de profissionais de cultura deve ir além da simples especialização. Essa postura foi adotada por boa parte das universidades nacionais, que incluem em seus currículos disciplinas que dialogam com aspectos da globalização, do consumo, da reconfiguração urbana e das novas relações, entre outros, pensando na formação de um profissional que enxergue a cultura como fruto de uma construção coletiva. A ideia é dar instrumental a esse profissional para que ele desenvolva uma consciência crítica sobre a realidade que o circunda e utilize essa visão mais ampla nos projetos e atividades culturais que vier a planejar e executar.

Dados concretos
A formalização do curso de Produção Cultural é algo recente no ensino brasileiro, reflexo de demandas do mercado. Nos anos 90 do século 20, um boom de leis de incentivo à cultura gerou um aumento expressivo do número de atividades culturais realizadas pelo País e, consequentemente, a necessidade de instrumentalização dos profissionais atuantes no setor.

Se, no exterior, os primeiros cursos de formação em produção cultural apareceram em meados dos anos 70 – Arts Administration, na Inglaterra, e Arts Management, nos Estados Unidos –, no Brasil, o tema só ganharia peso acadêmico em 1995, com o surgimento da Graduação em Produção Cultural, do Instituto de Arte e Comunicacão Social da Universidade Federal Fluminense –UFF, em Niterói (RJ). De acordo com o coordenador do curso da UFF, Luiz Guilherme Vergara, “o programa foi pensado para atender a uma classe profissional emergente, com foco na circulação da produção artística nacional”.

De lá para cá, segundo Vergara, tanto o perfil quanto o trabalho do produtor cultural mudaram. “Hoje, existe uma tendência de dar continuidade à vida acadêmica. Nossos  alunos seguem no Mestrado e no Doutorado, pensando em retornar à Universidade via concurso público. Isso é uma revolução para o setor. No campus da UFF, em Rio das Ostras, temos professores substitutos e permanentes que foram alunos da Graduação”, afirma.

O professor também aponta a expansão do campo de trabalho para os produtores culturais, que podem atuar em áreas como as de planejamento, políticas públicas e produção artística. Por isso, considera cada vez mais importante que o ensino concilie as questões culturais com noções de cidadania, educação e responsabilidade social. “Tudo está interligado e é preciso formar profissionais com mais competência, entendimento sobre questões globais. Só assim serão capazes de atuar de maneira responsável”, resume.

Com o que o produtor cultural Ugo Mello concorda. Recém-formado em Produção e Comunicação em Cultura pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, ele avalia as mudanças na cena cultural para os produtores. “Se, antes, faltava um maior profissionalismo ao mercado cultural, atualmente, existe uma busca por qualificação e aprimoramento. Com isso, têm surgido novos conceitos e áreas de atuação”, explica. Nessa linha, Mello aponta a preocupação com questões de responsabilidade social e sustentabilidade como inerente ao trabalho do produtor contemporâneo. “O profissional de cultura precisa estar preparado para lidar com a questão da responsabilidade. Como pensar um projeto cultural sem considerar essa realidade? Ainda mais quando o trabalho envolve grupos de risco ou de áreas periféricas”, diz.

O ex-aluno lembra ainda que a Graduação foi determinante para o ingresso na carreira, uma vez que possibilitou o contato com professores e profissionais da área, e a construção de um network. Porém, mesmo com redes já estabelecidas, vale lembrar que, por ser muito novo, o curso ainda caminha em direção a um maior reconhecimento, como revela o coordenador do Colegiado de Graduação em Comunicação – Produção em Comunicação e Cultura, da UFBA, Washington José de Souza Filho. “Em relação a outras formações como Medicina, Direito e Engenharia, a Produção Cultural sofre uma desvantagem: a falta de tradição do curso”. Souza Filho afirma que a institucionalização do curso de Produção Cultural reflete a necessidade de formação humanística da sociedade, e parafraseia a canção dos Titãs,  “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

Confira, abaixo, indicações dos entrevistados de livros e cursos relacionados à Produção Cultural.

Bibliografia:

Consumidores e cidadãos
Autor: Nestor García Canclini
EdUFRJ

Cultura e economia
Autor: Paul Tolila
Iluminuras

Entertainment Industry Economics
Autor: Harold Vogel
Cambrigde Univ. Press

Mercado Cultural
Autor: Leonardo Brant
Escrituras

Organização e Gestão de Eventos
Autor: Johnny Allen et al.
Elsevier

Organização e produção da cultura
Autor: Linda Rubim
UFBA

Políticas culturais no Brasil
Autor: Albino Rubim
UFBA

Políticas culturais: reflexões e ações
Autor: Lia Calabre
Itaú Cultural

Privatização da cultura
Autor: Chin-Tao Wu
Boitempo

The invention of Cultura
Autor: Roy Wagner
The University of Chicago Press

Cursos de Graduação:

Universidade Federal Fluminense – UFF (RJ)

FAAP (SP)

Universidade Federal da Bahia (BA)

Universidade Cândido Mendes (RJ)

Unisinos (RS)

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (RJ)

Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle (Paris, França)

Université du Québec à Montréal – UQAM (Montréal, Canadá)

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