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Fitoterapia – Usando as plantas para prevenir, aliviar ou curar » Lemnis Farmácia: Antroposofia Home

A utilização de produtos naturais como recurso terapêutico é tão antiga quanto a civilização humana, e por muito tempo, produtos minerais, vegetais e animais constituíram o arsenal terapêutico. Os dados mais antigos podem ser rastreados até 2500 aC, com a Medicina Tradicional Chinesa, passando por práticas organizadas de medicina pelos povos Egípcios e posteriormente pelos primeiros médicos gregos. Já na era da razão, inaugurada por Hipócrates, iniciou-se a desmistificação de que as doenças e sua cura eram coisas dos Deuses. Assim, o pensamento passou a ser de que tudo se tratava de fenômenos naturais, passíveis de serem observados e estudados até poderem ser associados a uma cura.

Com a chegada da Revolução Industrial e o desenvolvimento da química orgânica, os produtos sintéticos começaram a se destacar no tratamento farmacológico, principalmente devido a maior facilidade de obtenção de compostos mais puros e, portanto mais ativos e seguros. Mas nem assim, os produtos naturais perderam seu lugar na terapêutica e continuavam com utilização de crescente entre as populações.

Por outro lado, no período do Renascimento houve um estímulo ao pensamento científico, que fez com que houvesse uma melhoria na Medicina Popular e por conseqüência uma melhora também nos remédios caseiros a base de plantas e que eram passados de geração a geração.

Em meados do século XVI, surgia na Europa os primeiros jardins destinados ao cultivo de plantas medicinais. Esta prática ao final deste mesmo período já havia se disseminado por todo o velho continente.

Dando um salto na história, chegamos a segunda metade do século XX, onde o desdobramento dos movimentos de contracultura, originados, em especial nos Estados Unidos e países da Europa, trouxe, em sua fase inicial o interesse por outros sistemas médicos e práticas terapêuticas. Esses movimentos, de tendência “naturista e antitecnológica”, seduziram segmentos da população, sobretudo jovens e intelectuais, que passaram a valorizar aspectos culturais do Oriente, principalmente da Índia e da China. Esses sistemas terapêuticos e práticas de medicação e cuidados vinham em defesa de formas simplificadas e não invasivas para tratar as doenças, consumindo medicamentos oriundos de produtos naturais (não-químicos) e apoiados em uma proposta ativa de promoção da saúde. Assim, essa nova postura de tratar as doenças apresentava-se como uma “alternativa”, em contraponto à “Medicina contemporânea especializante e tecnocientífica” que pratica o combate às doenças e que é adotada como um “paradigma positivista hegemônico”.

Contudo, é importante ressaltar que o termo “medicinas alternativas” pode não ser tratado como um “conceito“, mas como uma “etiqueta institucional”, uma vez que se designa a qualquer forma de cura adversa da “área biomédica”.

De forma semelhante ao resto do mundo, no Brasil os movimentos de contracultura também atingiram principalmente as camadas jovens dos grupos intelectuais e socioeconomicamente mais favorecidas. No entanto, a abordagem naturista e antitecnológica presente nesses movimentos encontrou pontos de contato com a tradição popular, que atribui significativa importância a aspectos espirituais na determinação do processo de adoecimento e ainda possui grande apreço pelos recursos naturais de cura. Nessa perspectiva sociocultural, ampla parcela da sociedade com representação em todas as classes tendia a simpatizar e eventualmente adotar outros sistemas terapêuticos.

O crescimento dessas “medicinas alternativas” iniciou-se a partir da segunda metade da década de 70, atingindo seu auge na década de 80. Esse crescimento aconteceu tanto nos países ditos de “primeiro mundo” como nos de “terceiro mundo”, entre os quais se incluem os da América Latina.

Essa grande mudança de paradigma, vislumbrada pela possibilidade de se utilizar de forma racional os recursos naturais para obtenção de medicamentos de origem vegetal, em que pese à riqueza da flora brasileira, pode assegurar grande vantagem competitiva para o Brasil, proporcionando também expressivo benefício para a saúde brasileira.

Outro fato bastante positivo para esse segmento foi a publicação, em 2005, da Política Nacional da Medicina Natural e Práticas Complementares (PNMNPC) pelo Ministério da Saúde para o Sistema Único de Saúde (SUS), cuja implantação envolve justificativas de natureza política, técnica, econômica, social e cultural. Essa política visa a atender as necessidades de se “conhecer, apoiar, incorporar e implementar experiências”, incluindo a Medicina tradicional chinesa – Acupuntura, Homeopatia, Fitoterapia e Medicina Antroposófica, que já vêm sendo desenvolvidas na rede pública de muitos municípios e estados.

Portanto, a proposta da Medicina natural pode ser vista como uma prática médico-farmacêutica direcionada para uma dimensão mais ampla, mais saudável e que privilegia a melhoria da qualidade de vida das pessoas e das condições ambientais no planeta. Quando aplicada com base em conhecimentos, habilidades e tecnologias, esta pode ser capaz de levar aos usuários, à sociedade e ao planeta benefícios mútuos de forma consistente e sustentável.

E sustentabilidade deve ser a palavra de ordem para a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos, pois estes apresentam papel importante na terapêutica uma vez que cerca de 25 % dos medicamentos prescritos mundialmente são de origem vegetal e entre os 252 fármacos essenciais selecionados pela Organização Mundial da Saúde, 11% são de origem exclusivamente vegetal e uma parcela significativa é preenchida por medicamentos semi sintéticos, obtidos a partir de precursores naturais.

Cabe esclarecer que de acordo com a OMS, plantas medicinais são todas aquelas silvestres ou cultivadas, utilizadas como recurso para prevenir, aliviar, curar ou modificar um processo fisiológico normal ou patológico, ou utilizado como fonte de fármacos e de seus precursores, enquanto fitoterápicos são produtos medicinais acabados e etiquetados, cujos componentes ativos são formados por partes aéreas ou subterrâneas de plantas, ou outro material vegetal, ou combinações destes, em estado bruto ou em formas de preparações vegetais.

É importante relatar também que é falsa a idéia de que o medicamento natural não faz mal à saúde. E isto contribui com a estatística de que no Brasil, segundo o Sistema de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX), os medicamentos ocupam o pri­meiro lugar entre os agentes causadores de intoxicações em seres humanos e o segundo lugar nos registros de mortes por intoxicação, embora, não sejam encontrados dados es­pecíficos relacionados exclusivamente à ingestão de plantas medicinais.

A falta de conhecimento a respeito de condições de cultivo, associada à correta identificação farmacobotânica da planta, informações insuficientes sobre reações adver­sas, esquema de dose diária (posologia), período de tempo a ser emprega­do, as interações entre medicamen­tos, dentre outras, podem ser causas responsáveis pela intoxicação.

Na população de idosos de diversos países o uso de fitoterápicos também tem sido crescente. Em pesquisa realizada com aposentados e pensionistas de Belo Horizonte verificou-se que 10,6 % utilizaram fitoterápicos nos quinze dias que antecederam a pesquisa. Dentre os quais se destacam os medicamentos com extrato de Ginkgo (Ginkgo biloba), Castanha da Índia (Aesculus hippocastanum) e Isoflavonas. (Vide quadro abaixo).

 

Quadro 1 – Distribuição dos fitoterápicos utilizados pelos aposentados do INSS, de 60 anos ou mais, Belo Horizonte (MG), Brasil, 2003.

Fitoterápico Frequencia – n (%)
Ginkgo (Ginkgo biloba)

41 (41,8)

Castanha da índia (Aesculus hippocastanum) 12 (12,3)
Isoflavonas de soja (Glycine max) 8 (8,2)
Maracujá(Passiflora incarnata) 4 (4,1)
Crataego (Crataegus oxyacantha) 3 (3,1)
Plantago (Plantago ovata) 3 (3,1)
Sene (Senna alexandrina) 3 (3,1)
Alcachofra (Cynara scolymus) 2 (2,0)
Alcaçuz (Glycyrrhiza glabra) 2 (2,0)
Arnica (Arnica montana) 2 (2,0)
Cassia fistula 2 (2,0)
Garra-do-diabo (Harpagophytum procumbens) 2 (2,0)
Ginseng (Panax ginseng) 2 (2,0)
Guaco (Mikania glomerata) 2 (2,0)
Hamamelis (Hamamelis virginiana) 2 (2,0)
Poligala (Polygala senega) 2 (2,0)
Unha-de-gato (Uncaria tomentosa) 2 (2,0)
Valeriana (Valeriana officinalis) 1 (1,0 )
Cascara Sagrada (Rhamnus purshiana) 1 (1,0)
Espinheira-Santa (Maytenus ilicifolia) 1 (1,0)
Guaraná (Paullinia cupana) 1 (1,0)
Total

98 (100,0)

Fonte: Marliére, L. D. P. et all, 2008.

Assim são diversas as indicações e contra indicações das plantas medicinais e fitoterápicos (vide quadro 2) e por isto é importante a utilização racional de plantas medicinais, orientada por profissionais habilitados, procurando garantir a segurança, eficácia dos medicamentos e o manejo sustentado das plantas.

 

Quadro 2 – Indicações e contra indicações de algumas das plantas medicinais e fitoterápicos

Fitoterápico Indicações e Contra-indicações
Alcachofra(Cynara scolymus)

Parte utilizada: Folhas

Diurética, depurativa, reduz o colesterol e a taxa de uréia, colerética (provoca a hiper-secreção biliar), colagoga (promove a segregação da bile), laxativa, tratamento da obesidade e hipoglicemiante.É contra-indicado para pacientes com obstrução das vias biliares, hepatite e durante a amamentação (por diminuir a secreção de leite).
Alecrim(Rosmarinus officinalis)

Parte utilizada: Folhas

Estimulante geral, carminativo (atenua o desenvolvimento de gases no estômago e no intestino), colerético (provoca a hiper-secreção biliar), colagogo (promove a segregação da bile), anti-reumático e diurético.
Bosvélia(Boswellia serrata)

Parte utilizada: Resina obtida do caule

Agente antiinflamatório e analgésico, utilizada no tratamento da artrite reumatóide e outras condições inflamatórias.
Camomila(Matricaria chamomilla)

Parte utilizada: Flores

Antiespasmódica (reduz ou inibe a contração involuntária anormal dos músculos), carminativa (atenua o desenvolvimento de gases no estômago e no intestino) e calmante.
Caralluma fimbriata Parte utilizada: Planta inteira Tem ação supressora do apetite e reduz a circunferência abdominal.
Cáscara Sagrada(Rhammus purshiana)

Parte utilizada: Cascas

Tratamento de constipação intestinal, pois atua como laxante de efeito suave sendo utilizado também no tratamento da obesidade.É contra indicado durante a amamentação, pois é excretado no leite materno.
Cassiolamina(Cassia nomame)

Parte utilizada: Frutos

Reduz a pressão sanguínea, os níveis de colesterol sérico, de ácido úrico e a glicemia e é indicado nas dietas de emagrecimento.
Cavalinha(Equisetum hiemal)

Parte utilizada: Partes aéreas

Remineralizante ósseo, diurética, antiinflamatório e tratamento de distúrbios geniturinários.É contra-indicado em casos de gastrite, úlcera gastro-duodenal, na gravidez e lactação.
Faseolamina(Phaseolus vulgaris)

Parte utilizada: Feijão branco

Impede parcialmente a digestão e a absorção de carboidratos, reduzindo o nível de açúcar no sangue e diminuindo o apetite. Melhora o funcionamento do intestino porque, além do carboidrato não absorvido, há um aumento do volume das fezes, pois a faseolamina tem fibras.
Fucus(Fucus vesiculosus)

Parte utilizada: Alga inteira

Utilizado no tratamento da obesidade e é um laxante com ação suave.É contra-indicado nos casos de hipertireoidismo por conter iodo e para pacientes em tratamento com hormônios tireoideanos.
Garcinia cambogia Diminui o apetite e a vontade incontrolável por doces, equilibra a produção de gorduras como o colesterol e os níveis de açúcar no fígado.
Garra de Diabo (Harpagophytum procumbens)

Parte utilizada: Raízes 

Antiinflamatória indicado como auxiliar no tratamento da artrite reumatóide (inflamação das articulações), analgésica, artrose, bursite, fibromialgia e tendinite.
Ginkgo(Ginkgo biloba)

Parte utilizada: Folhas

Estimulante da circulação sanguínea, atua em processos trombolíticos, na diminuição das desordens da memória, nos distúrbios de atenção e tem ação contra radicais livres.
Ginseng(Panax ginseng)

Parte utilizada: Raízes

Ação estimulante no sistema nervoso central, revitalizante físico e psíquico e atua contra a diminuição da libido causado pelo estresse.
Glucomannan(Amorphophalus konjac)

Parte utilizada: Raízes

Utilizada no tratamento da obesidade por proporcionar sensação de plenitude gástrica e reduz os níveis plasmáticos de colesterol e triglicerídeos.
Hipérico(Hypericum perforatum)

Partes utilizadas: Flores e folhas

Calmante, antidepressivo, sedativo e tratamento de distúrbios psicovegetativos acompanhados de ansiedade.É contra indicado para pacientes em uso de quimioterápicos devido à ocorrência de interação e pode aumentar a sensibilidade a luz solar. Não deve ser usado na gravidez e lactação.
Isoflavonas de soja(Glycine Max)

Parte utilizada: Sementes

Atua na redução dos sintomas decorrentes do climatério, como sensações de calor no corpo e no rosto.
Laranja amarga(Citrus aurantium)

Parte utilizada: Flores, folhas e frutos

Aumenta o metabolismo, promove queima de calorias e redução dos estoques de gordura estimula a liberação de adrenalina, tem propriedade digestiva e promove a absorção dos nutrientes.
Mulungu (Erythrina mulungu)

Parte utilizada: Cascas

Ação sedativa, calmante na agitação nervosa e insônia e também como coadjuvante em dores de origem reumática ou nevrálgica.
Maracujá(Passiflora alata)

Parte utilizada: Folhas

Ação sedativa, tranqüilizante, antiespasmódico e nas perturbações nervosas da menopausa.É contra-indicado sua administração junto com o álcool, anti-histamínicos e medicamentos depressores do sistema nervoso central.
Sene(Cassia angustifolia)

Parte utilizada: Folíolos e vagens 

Laxativo suave que não produz irritação estomacal ou no intestino delgado.É contra-indicado durante a gravidez, lactação, no caso de hemorróidas.
Silimarina(Silybum marianum)

Parte utilizada: Folhas

Silimarina é um fármaco eficaz na restauração da função hepática e na regeneração das células hepáticas podendo ser utilizada para diferentes doenças que acometem o fígado.
Tríbulo(Tribulus terrestris)

Partes utilizadas: Frutos, partes aéreas e sementes

É utilizado contra a disfunção eréctil, pois eleva os níveis de testosterona e melhora a circulação sanguinea. Atua na formação de espermatozóides.
Valeriana(Valeriana officinalis)

Partes utilizadas: Raízes e rizomas

Tem ação sedativa sobre o sistema nervoso central e antiespasmódica. Pode ser associado a brometos e outros sedativos na neurastenia, astenia, histeria, irritabilidade, insônia de fundo nervoso, palpitações nervosas e distúrbios da menopausa.
Yam mexicano(Dioscorea villosa)

Parte utilizada: Rizomas

É utilizado na terapia de reposição hormonal no climatério, na dismenorreia (menstruação difícil e dolorosa), na tensão pré-menstrual, em distúrbios testiculares, disfunção erétil, hipertrofia da próstata e alterações psicossexuais.

Fonte: Elaboração própria.

Com algumas restrições, as melhores plantas medicinais podem ser as silvestres. Contudo a colheita indevida pode levar algumas espécies a extinção além de uma possível contaminação na colheita. Portanto, é atualmente mais recomendável que se utilizem plantas medicinais cultivadas com boas técnicas que passam pelo: preparo do solo através da adubação com estercos de animais, compostos orgânicos ou adubos verdes; obtenção e preparo de mudas; plantio; tratos culturais; práticas de controle fitossanitário ( mecânicas, culturais, biológicas ou químicas); controle de qualidade das plantas medicinais; autenticidade da planta; Integridade; pureza e análise dos princípios ativos.

Outros pontos também de suma importância na fitoterapia são a boa origem das plantas ou extratos destas, a qualidade da matéria prima e a garantia da dose prescrita. Assim, na aquisição de um fitoterápico industrializado escolha a marca de um bom Laboratório Farmacêutico ou se for manipular procure uma Farmácia de Manipulação de confiança. Esta decisão não deve passar apenas pelo preço.

 

Algumas ilustrações:

Cáscara Sagrada

 

 

 

 

Garcinia

  

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