Orquestra labial

 

          Ao nascer recebemos de Deus um corpo perfeito, repleto de recursos para levarmos uma vida feliz e saudável, e uma alma para nos inspirar e guiar. Usamos pouco o potencial divino do nosso corpo e esquecemo-nos muitas vezes da nossa alma.

          Não sei explicar o porquê, mas hoje durante a minha caminhada pelas ruas de Cuiabá, me surpreendi assobiando.  Assobiava reproduzindo um samba de 1946, imortalizado pela voz de Isaurinha Garcia – “De conversa em conversa” – de autoria de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa. Um hábito que vem da minha infância – uma das coisas que todo menino normal sabia fazer era assobiar.

                   Estava tão distraído assobiando que não percebi o cumprimento de uma senhora que passava pelo meu lado direito. Quando me chamou pelo nome é que percebi a minha total abstração. Parei por uns instantes com a minha orquestra de boca para me desculpar e retribuir o cumprimento. A seguir, continuei emitindo sons da melodia durante os seis quilômetros do meu exercício.

          Que som maravilhoso produz a nossa orquestra “buco-labial”! Na minha memória, a letra do samba dor de cotovelo, que traduzia a realidade da vida da cantora e de muita gente.

          Ninguém me ensinou a assobiar. Todos, na época da minha infância assobiavam: adultos, crianças e velhos. Depois inventaram que era falta de educação e coisa feia. As crianças pararam de assobiar e só alguns velhos ainda hoje curtem esse som.

          O meu pai, no caixa do Bar do Bugre assobiava. A sua música predileta, era “Tai” cantada por Carmem Miranda: “Tai, eu fiz tudo prá você gostar de mim…”. A minha mãe possuía um repertório maior, mas a sua favorita, em qualquer oportunidade era “Maracangalha” de Dorival Caymmi: “Eu vou prá Maracangalha, eu vou…”

Naquela época muitos grupos profissionais se apresentavam em shows e gravavam discos assobiando. Não sou um expert em música, nem possuo qualquer habilidade em tocar instrumento musical, mas, ao assobiar, até que consigo pegar o ritmo da música – e o som que escuto me faz tão bem!

          A beleza dessa orquestra que Deus nos deu, é surpreendente! É um dos recursos do nosso corpo que pouco se usa hoje em dia. Descobri que se pode ficar feliz com coisas pequenas e aparentemente insignificantes.

          Como é gostoso assobiar!

 

 Gabriel Novis Neves

24/01/2010

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