Parceria PUC-SP: Democratização cultural em foco  

Por Blog Acesso

 

Leis de incentivo, acesso a bens culturais, desigualdade e produção artística no Brasil. Esses e muitos outros temas foram discutidos no evento “Democratização cultural em foco”, uma parceria entre o Instituto Votorantim e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O objetivo da iniciativa foi disseminar a causa da democratização cultural no ambiente universitário e gerar troca de conteúdos entre o Instituto Votorantim, o meio acadêmico e os jovens universitários, por meio de atividades gratuitas. O programa de atividades iniciou-se no dia 10 de novembro, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), com o debate “Contexto da produção X acesso à cultura no Brasil”. No encontro, especialistas em produção cultural e artística discutiram caminhos para ampliar o acesso à cultura produzida no País.

O evento teve a participação de Helena Katz, professora e coordenadora do Centro de Estudos em Dança da PUC-SP, Aimar Labaki, dramaturgo e roteirista, e da escritora Márcia Tiburi, professora de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura na Universidade Mackenzie e participante do programa Saia Justa, do canal GNT. A mediação foi feita pelo gerente de Desenvolvimento Sociocultural do Instituto Votorantim, Lárcio Benedetti.

Contexto da produção X acesso à cultura

"A lógica da produção cultural exclui o público”, afirmou Helena Katz. Para ela, é necessário modificar essa cadeia “pensando no consumidor dos bens culturais". Para isso, sugeriu a elaboração de uma agenda de tarefas que priorize a população, que deve se acostumar a consumir arte, apreciar espetáculos, além de participar de oficinas e cursos de formação artística. Dentro dessa agenda, têm de estar, entre outras questões, a mudança dos mecanismos de financiamento, que hoje delegam poder de decisão às empresas, e a revisão do sistema da meia-entrada, que aumenta o valor dos ingressos.

Esse conjunto de fatores, no entender de Helena, sustenta uma lógica distorcida na produção cultural. “Todo mundo quer ingresso grátis, mas ninguém chega numa loja e pede uma roupa de graça. O valor de troca dos bens culturais não está claro. Arte é trabalho, não hobby. A cultura do ingresso gratuito não educa as pessoas a pagarem por cultura”, afirma. Helena avaliou que muitos programas de democratização cultural são hoje pensados simplesmente como treinamento de habilidades: “Isso é uma leitura impositiva do tema, algo do tipo: ‘eu sei o que é bom para você. Você não sabe porque não estudou nos mesmos bons colégios que eu; você veio da periferia’”. Democracia cultural, para a debatedora, “é formação de público, é aprender a ver uma peça de teatro, ir ao cinema, ler e consumir arte".

Aimar Labaki pautou sua fala na produção teatral, na formação de plateia e no acesso aos eventos artísticos produzidos no Brasil e vistos por uma parcela ainda muito restrita da população. "A arte é subconjunto da cultura, é reorganizar elementos do sensível dialogando com a tradição", afirmou, antes de defender que todos os tipos de arte pedem uma atitude ativa do expectador, impossível de ser desenvolvida sem um acesso constante às produções.  “A arte deve instaurar uma crise em mim”, explicou, colocando-se no lugar do espectador. “Formar plateia não é só dar elementos racionais para que as pessoas entendam aquilo. É preciso dar acesso permanente às obras de arte para que o público crie espaço interno para dialogar com essas obras. A plateia precisa ver um show, uma exposição ou uma peça de teatro uma vez por semana, para criar um leque amplo de referencias”, defende.

Ao avaliar o momento atual do Brasil sob a ótica dos produtores culturais, o dramaturgo demonstrou-se otimista: "Nunca antes no Brasil a cultura teve tanto dinheiro disponível para produzir”, afirmou Labaki. “Mas a maioria da população ainda não está consumindo essa produção como deveria. E incentivar a fazer arte ajuda a formar público, faz com que as pessoas se interessem mais pelas obras”, afirmou.

Para Márcia Tiburi, última debatedora a expor, quando se fala em acesso, na verdade se fala de tudo o que divide ricos e pobres. “A cultura no Brasil só existe do ponto de vista da burguesia, dos que têm acesso e produzem arte e cultura”, afirmou. Tendo em vista esse quadro, a professora avaliou que existe um “paradoxo da cultura” no Brasil. “A cultura aqui não valoriza a cultura. A cultura não é problema de ninguém. Eu discordo da Helena porque não gosto de tratar a cultura como mercadoria”, afirmou.

Defendendo o papel libertador da arte, Márcia destacou o teatro, que classificou como “a contramão do capitalismo”. Daí sua defesa em evitar discutir relações de consumo na arte. “A diferença entre o consumidor e o usuário é que o primeiro destrói, o segundo usa e guarda, recicla”, afirmou.  Márcia defendeu ainda que sem educação de qualidade não é possível acessar a cultura. “O casamento da cultura com a educação tem que ser em todos os níveis: federal, estadual e municipal”. Entretanto, ela considera que não há interesses governamentais mobilizados em promover essa mudança. “Democracia não é capitalismo. E o que vemos no Brasil é a redução da vida ao capital”, afirmou.

Estruturação de projetos

A segunda etapa do evento aconteceu no dia 14 de novembro com a oficina “Como estruturar um projeto cultural com foco no acesso”, ministrada por Sharon Hess, diretora da Articultura e especialista em captação de recursos. A atividade foi baseada no Manual de Apoio à Elaboração de Projetos de Democratização Cultural, ferramenta desenvolvida pelo Instituto Votorantim para estimular e qualificar a formulação de projetos voltados ao acesso cultural, auxiliando proponentes de todo o País.

Na oficina, foram discutidos vários casos de projetos que trabalham com a questão do acesso à cultura no Brasil. "A maioria das pessoas aponta a captação de recursos como a principal dificuldade para colocar uma ideia em prática, mas muitas vezes o problema não está no modo de captar, mas na estratégia de gestão, divulgação e até mesmo na definição do projeto, que deve ser clara e objetiva", explica.

Como exemplo de projeto bem elaborado, Sharon citou o Doutores da Alegria, que se tornou autossustentável ao consolidar a marca e conquistar credibilidade. Antes de propor aos participantes um exercício de aplicação dos conceitos discutidos, ela deixou uma dica para produtores, estudantes e artistas: a leitura de A Estratégia do Oceano Azul (Kim e Mauborgne, editora Campus), obrigatória para quem pretende elaborar um projeto e, sobretudo, vê-lo sair do papel, virar realidade e ajudar a transformar o Brasil.

A apresentação utilizada na oficina “Como estruturar um projeto cultural com foco no acesso” está disponível on-line. Clique aqui para baixá-la.

Anúncios