*MEDO DE PERDER*
   Texto: *Marina Fidélis*

    Um dos maiores obstáculos para uma vida plena harmônica mais expressiva
> e significativa é o *medo de* *perder, *sobre tudo* *o* medo de perder
> *alguém. O *medo de perder *alguém que* *dizemos amar. O *medo de
> perder* a esposa*, *o esposo, os filhos, os amigos, o patrão, o*
> *empregado, o cliente; esta emoção é a principal responsável pelo nosso
> sofrimento vital. Medo de perder é o medo de nos tornarmos dispensáveis
> para a pessoa com a qual nos relacionamos. O medo de perder se reveste
> de mil e uma formas, aparece sob mil disfarces, medo de sermos
> criticados por alguém, medo de que falem mal de nós, medo que nos
> humilhem, medo de sermos abandonados, medo de sermos rejeitados, medo de
> não sermos importantes, medo de não sermos ilustres, medo de sermos
> menosprezados, medo de não sermos amados, medo da solidão e tudo isso
> pode ser designado mais claramente por uma palavra, *ciúme.*
>
> O *ciúme *é o medo de não ter alguém de não possuir alguém, na relação
> ciumenta colocamos nós e o outro como objetos, nesta relação pessoa e
> objeto são a mesma coisa. No ciúme temos medo de ser, algum dia,
> considerados inúteis, dispensáveis à outra pessoa. Esta é a emoção do
> sofrimento, a emoção do apego, a emoção da relação confusa, misturada e
> dependente e o que agrava é que na nossa cultura, aprendemos o ciúme
> como sendo amor e o ciúme é justamente o contrário. O ciúme é o oposto
> do amor. Na relação amorosa existe identidade – _eu_ sou
> independentemente de _você_. Na relação ciumenta e objetal perde-se a
> identidade – eu sem você não valho nada, você é tudo para mim.
>
> O amor é solto é livre vem de uma querência íntima, está diretamente
> ligado ao sentido de liberdade, de opção, de escolha. O *ciúme* prende,
> amarra, condiciona, determina com esta emoção – eu já não sou eu, sou o
> que o outro quer que eu seja, para que ele também seja o que eu quero
> que ele seja. No ciúme há um pacto de destruição mútua em que cada qual
> usa o outro como garantia de que não estará sozinho. Eu me abandono para
> que o outro não me abandone, eu me desprezo para que o outro não me
> despreze, eu me desrespeito para que o outro não me desrespeite, eu me
> destruo para que o outro não me destrua.
>
> O *ciúme *é o medo de ser dispensável a alguém e o mais grave talvez
> esteja aqui – nós passamos a vida inteira com medo de nos tornarmos para
> os outros, um dia, o que nós já somos: totalmente dispensáveis. O homem
> é por definição dispensável, transitório, efêmero, aquilo que passa e
> isto é bastante real. Em todas as relações que temos hoje somos
> substituíveis, o mundo sempre existiu sem nós, está existindo conosco e
> continuará a existir sem nós. Nós somos necessários aqui e agora, mas
> seremos dispensáveis além e depois. O medo de ser dispensável a alguém é
> o mesmo medo da morte, que também é real. O medo da morte é o *ciúme* da
> vida, é a vontade irreal, falsa de sermos eternos, permanentes e
> imutáveis. O *medo de perder* nos leva a entender que as coisas só valem
> a pena se forem eternas, permanentes, duráveis. Uma relação só tem valor
> neste caso se nós tivermos garantia que sempre será assim como é e como
> tudo é transitório, como tudo é mutável, como tudo é passível de
> transformação o *medo de perder* nos leva a estado contínuo de
> sofrimento. As conseqüências do *ciúme *são muito claras, se eu tenho
> medo de que me abandonem, de me tornar dispensável a alguém, de que não
> me amem, ao invés de fazer tudo para ser cada vez mais, para ser cada
> vez melhor, eu vou gastar toda a minha vida, todas as minhas energias
> para provar aos outros que eu já sou mais, que eu já sou o melhor, que
> eu já sou o primeiro ao invés de empenhar esforços para ser um marido,
> por exemplo, cada vez melhor, um filho cada vez melhor, uma esposa cada
> vez melhor, um pai ou mãe cada vez melhor, um chefe cada vez melhor – eu
> gasto as minhas energias para provar à minha mulher, aos meus filhos,
> aos meus amigos, ao meu marido, ao meu chefe, ao meu empregado que eu já
> sou o melhor pai do mundo o que é mentira, o melhor marido do mundo o
> que é mentira, o melhor amigo do mundo o que é mentira, o melhor chefe
> do mundo o que é mentira, o melhor empregado do mundo o que é mentira e
> assim por diante. O *ciúme* nos conduz a um delírio de onipotência, os
> nossos atos, as nossas iniciativas, a nossa conversa, o nosso
> comportamento, as nossas considerações, tudo é para mostrar aos outros
> que nós já somos bons, fortes, capazes e perfeitos. Aqui está a
> diferença básica fundamental entre o *medo de perder* e a vontade de
> ganhar*.*
>
> *Medo de perder* é assim, ganhamos ninguém vai nos tomar, gastaremos
> todas as energias para defender o que nós já possuímos para conservarmos
> o que já ganhamos, nós já chegamos ao ponto máximo, só temos que perder.
> A* vontade de ganhar*, por outro lado, é assim – estamos sempre ativos,
> descobrindo as oportunidades de ganho, procuraremos ganhar cada vez
> mais, ao invés de nos preocuparmos com possíveis perdas.
>
> O que nós temos de mais sagrado é a nossa própria vida, esta nós já
> vamos perder, todas as outras perdas são secundárias – *o medo de
> perder* é reativo, defensivo, justificativo – as pessoas ciumentas estão
> sempre com um pé atrás, outro na frente, sempre se prevenindo para não
> perder; sempre se preparando, sempre conservando. As pessoas com
> *vontade de ganhar* estão sempre ativas, sempre optando, arriscando. O
> *medo de perder* é a vivência do futuro, é a vivência antecipada do
> futuro, é a preocupação. A *vontade de ganhar* por outro lado é a
> vivência do presente, a vivência da beleza do presente, em tudo a cada
> momento existem riscos e existem oportunidades. No medo de perda a
> pessoa só vê os riscos. Na vontade de ganhar a pessoa vê os riscos mas
> sobretudo vê também as oportunidades. Cada momento da vida é um desafio
> para o crescimento.
>
> A *vontade de ganhar *a qual nos referimos não significa ganhar de
> alguém mas ganhar de si mesmo, ser cada vez mais, estar sempre disposto
> a dar um passo a frente, estar sempre disposto a crescer um pouco mais,
> é importante termos sempre para nós que hoje pudemos crescer um pouco
> mais do que éramos ontem, descobrir que ninguém chegou ao seu limite
> máximo, que idade adulta não significa que chegamos ao máximo de nossa
> potencialidade. Não existe pessoa madura e sim pessoa em amadurecimento,
> todo o nosso sofrimento vem de uma _paralisação do crescimento pessoal
> _e cada um de nós sabe muito bem aonde paralisou, aonde a nossa energia
> está bloqueada e aonde não está havendo expansão da nossa própria
> energia. Ainda não vimos, até hoje, um relacionamento se deteriorar sem
> a presença marcante do *ciúme*, do desejo de sermos donos da outra
> pessoa, de uma ânsia de mais poder e controle sobre os pensamentos, os
> sentimentos e as ações da pessoa a quem dizemos amar.
>
>
>
> O *ciúme* é a doença do amor, é um profundo desamor a si mesmo e
> consequentemente um desamor ao outro. Pelo *ciúme* se estabelece uma
> relação dominador versos dominado. O ciúme é a dor da incerteza com
> relação ao sentimento de alguém no futuro, é a raiva da não possuir a
> segurança absoluta do relacionamento no futuro é a tristeza de não saber
> o que vai acontecer amanhã aliás, o que dói no *ciúme *é a *insegurança*
> do desconhecido. Passamos a vida inteira tentando conseguir o que jamais
> conseguiremos: segurança. A segurança não existe, não existe em nada,
> ser seguro não significa acabar com a *insegurança* mas aceitá-la como
> inerente à natureza humana. Ninguém pode acabar com o risco do amor, por
> isso só é possível estar em estado de amor se sabemos estar em estado de
> risco. Desperdiçamos o único momento que temos, o agora em função de um
> momento inexistente, o futuro. Parece que as pessoas só valem para nós
> no futuro, nós não curtimos hoje o relacionamento com a mulher, com os
> filhos, com os amigos, sofrendo com a possibilidade de um dia não sermos
> mais queridos por eles. O filho por exemplo, parece que só nos é
> importante amanhã, quando crescer, quando se formar, quando casar,
> quando trabalhar, etc. – até hoje não conhecemos um pai preocupado com o
> futuro dos filhos, que estivesse brincando com eles – em geral não tem
> tempo porque estão muito preocupados em assegurar-lhes um futuro brilhante.
>
> O ciúme é a incapacidade de vivermos hoje a gratuidade da vida, hoje é o
> primeiro dia do resto da nossa vida, querendo ou não hoje estamos
> começando, e viver é considerar cada segundo de novo, a cada dia o seu
> próprio cuidado. O medo daquilo que me pode acontecer tira a minha
> alegria de estar aqui e agora, o medo da morte tira a minha vontade de
> viver, o *medo de perder* alguém tira a minha beleza de estar com ele
> agora, aliás quando temos *medo de perder* alguém é porque imaginamos
> que as pessoas são nossas, ninguém pode perder o que não tem e nós
> sabemos que ninguém é de ninguém, cada pessoa é única e exclusivamente
> dela mesma, esta é outra falsidade. Podemos perder um livro, um
> isqueiro, um baralho, uma bolsa, mas jamais uma pessoa.
>
> Um sinônimo do *medo de perder* é a obsessão do *primeiro lugar*, o que
> é a obsessão do *primeiro lugar* é* *colocarmos nos outros a tarefa
> impossível de sermos o primeiro em todos os lugares e em todas as
> circunstâncias. Se em casa queremos ser o primeiro, no trabalho queremos
> ser o primeiro, numa reunião queremos ser o primeiro, no futebol
> queremos ser o primeiro, num assunto específico queremos ser o primeiro,
> em outro assunto qualquer, sempre o primeiro. O *primeiro lugar* é
> amarelante deteriorante, ao passo que o *segundo lugar* é esperançoso e
> enverdejante, pois quando alguém chegou ao cume da montanha, só lhe
> resta um caminho, começar a descer – no segundo ainda temos para onde
> ir, para onde crescer. A postura do *segundo lugar* nos leva ao
> crescimento, ao crescimento contínuo porque você não se decreta em
> *segundo lugar*, mesmo quando estiver ocupando-o.
>
> Alguém sabe porque o mar é tão grande, tão imenso, tão poderoso? È
> porque teve a humildade de se colocar alguns centímetros abaixo de todos
> os rios do mundo – sabendo receber tornou-se grande, se quisesse ser o
> primeiro, acima alguns centímetros de todos os rios do mundo, não seria
> um mar mas uma ilha e toda a sua água iria para os outros, e ele estaria
> isolado. Além disso a perda faz parte, a queda faz parte, a morte faz
> parte e é impossível vivermos satisfatoriamente se não aceitarmos a
> perda, a queda, o erro e a morte. Precisamos aprender a cair a errar e a
> morrer. Não é possível ganhar sem saber perder, não é possível andar sem
> saber cair, não é possível acertar sem saber errar, não é possível viver
> sem saber morrer. Em outras palavras, se temos medo de cair andar será
> muito doloroso, se temos medo da morte a vida será muito ruim, se temos
> medo da perda o ganho nos enche de preocupações; esta é a figura do
> fracassado dentro do sucesso, pessoas que quanto mais ganham, quanto
> mais melhoram na vida, mais sofrem. Para a pessoa que tem medo de ficar
> pobre, quanto mais dinheiro tem mais preocupada fica; para a pessoa que
> tem medo do fracasso, quanto mais sobe na escala social mais desgraça a
> sua vida, em compensação, se você aprende a perder, a cair e a errar,
> ninguém o controla pois o máximo que pode acontecer a você é cair, é
> errar e isso você já sabe.
>
> Bem aventurado aquele que consegue receber com a mesma naturalidade o
> ganho e a perda, o acerto e o erro, o triunfo e a queda, a vida e a morte.

Anúncios